domingo, 30 de agosto de 2015

MORTE E MORRER

MORTE E MEDO DE MORRER
João Joaquim



  Eu começo esta crônica tomando de empréstimo uma citação do grande escritor, cronista e humorista Luiz Fernando Veríssimo. Numa entrevista perguntaram-lhe sobre a morte. Ao que de bate-pronto ele retorquiu “ É a última coisa que quero para mim”. Quanto humor sadio, severidade e realismo nesta frase. E aí então, sem muita Ciência, cientificismo, religião e pieguismo eu divago um pouco sobre a ideia que nós, os ocidentais, temos sobre essa tal das indesejadas e indigitada das gentes( parodiando Manoel Bandeira, bela perífrase ).
É interessante pontuar , até onde meu intelecto e meu saber alcançam, que o conceito de morte e existência pós-morte varia de acordo com a cultura e as crenças das pessoas. Para ilustrar essa visão diferenciada basta ler alguns princípios e dogmas do Hinduísmo, do Xintoísmo(Japão), do Islamismo. Quando citamos islamismo, não se pode confundir com o fundamentalismo (Isis, Boko-Haram etc). Porque o sistema e crença desses terroristas são uma abominação e absoluta degeneração dos escritos sérios e  sagrados do corão.
Quando se fala de morte para os seguidores e praticantes do cristianismo também fica de fácil entendimento. Afinal o seu protagonista maior, Jesus de Nazaré, personifica bem o que é o ciclo nascimento-vida-morte-vida pós-morte.
Abstraindo um pouco da visão e da era cristã eu gosto muito, tenho mesmo uma grande admiração por algumas correntes filosóficas sobre a bipolaridade de nossa existência vida e morte. Em curtas referências e sem divagações sistemáticas eu citaria por exemplo dois filósofos gregos: Sócrates e Platão, século III e IV a.C. É admirável como a cultura e filosofia desses baluartes da sabedoria grega (ocidental) se coadunam com os princípios e preceitos cristãos do novo testamento. São notáveis e encorajadoras, para os cristãos as convicções e crenças de Sócrates sobre imortalidade da alma. Uma demonstração de sua inabalável fé na imortalidade da alma foi quando condenado (por suas convicções) ao suicídio pela ingestão de cicuta (planta venenosa). Conta-se que no momento de sua execução ele debochou e ironizou dos pretores (juízes) que o condenaram e de seus carrascos. Sócrates afirmou que os seus algozes e inimigos estavam também condenados , não à morte ,mas  ao ostracismo e ao esquecimento, enquanto ele (Sócrates) viveria para sempre. A História revela que grande filósofo e sábio que foi, ele tinha absoluta razão. Sócrates(autor da lapidar frase -só sei que nada sei-) , sem dúvida garantiu seu assento em definitivo no panteão dos gênios e  avatares,  bem como ingresso ao rol dos  bem aventurados no reino dos céus. Viva o Sócrates. Ninguém  se lembra de seus algozes.
 Platão , como se sabe, foi discípulo e grande responsável em perpetuar os ensinamentos de Sócrates. Tornando aqui para nosso mundo menor, cristão e brasileiro. E mesmo para o dos  não cristãos e ateus. Eu penso que nós humanos, somos a única espécie que além de inteligente e racional temos consciência e certeza de nossa mortalidade, de que somos nascidos e mortais( memento mori)  . Outros animais têm medo da morte apenas quando ameaçados, mas não vivenciam a condição de mortais. Existe até um princípio existencial de que o homem (gênero) vive cada dia como se fosse o último, os animais irracionais vivem cada dia como se fosse o único, nem o primeiro, nem o último, mas um contínuo. Uma outra característica muito bacana e saudável das pessoas  é o fato de elas viver como se fossem eternas. Olha quanta beleza reside nessa habitualidade de levar a vida como se fôssemos eternos, sem começo, meio e fim. Imagina o quanto de angústia isso geraria, a todo instante eu me lembrar que um dia vou me apagar. Nós só introjetamos a ideia e sofrimento da morte quando somos ameaçados. Na vigência de uma doença mais grave, de uma ameaça física, frente a um perigo iminente. Basta lembrar das fobias de trânsito, de avião, de altura etc. Nessas horas, na verdade estamos expressando nossa fobia da morte.
Uma última questão que trago à reflexão se refere ao luto vivido pelas pessoas que perderam um amigo ou parente muito querido (filho, pai, irmão). Não é incomum depararmos com aqueles(as) que após a morte de um familiar vivem o resto da vida em profunda depressão e eternos lamentos pela perda desse parente.
O que eu como médico, filho e pai de dois filhos posso falar para essas pessoas em eterna luta no luto por algum parente? Eu que também já passei pelo luto de parentes próximos . Viver a vida da forma a mais bela, a mais pura e ética é o caminho mais seguro de uma vida feliz aqui e depois do aqui.

A morte é um fenômeno indissociável da vida. Diante da  perda de alguma pessoa que nos era querida e amável nos resta, de fato, lamentar o seu fim, a sua extinção de nosso convívio. Todavia, que essa angústia, esse luto não perdure por meses ou anos a fio. Frente à morte de alguém de nosso círculo  de amizade ou de sangue o que devo fazer é aproveitar a memória, os legados que essa pessoa deixou para mim, para a sua família  e para a minha família, quando não até para a comunidade onde ela vivia e para o mundo. Aqui, sim, eu posso então dar significado não só à perda dessa pessoa querida, afetuosa, amável e útil aos que ficam , mas sobretudo às suas contribuições deixadas em vida.  

PENSAR E FALAR

PENSAR É LIVRE, EXPRESSAR NEM TANTO  

 João Joaquim 

É opinião unânime que um dos mais nobres tributos da condição humana seja a liberdade. E aqui é ser livre no sentido o mais amplo possível. Imaginemos a mais nobre e primitiva dessas liberdades que é o direito de locomoção ou como se diz no vulgo o de ir e vir. Não é sem razão que uma forma que o Estado encontrou para punir um criminoso é com a privação da liberdade. Em termos frios e realísticos o encarceramento de uma pessoa é mais cruel do que a pena de morte. Isto é sobretudo verdadeiro no Brasil onde as condições dos presídios são desumanas e degradantes. O nosso próprio ministro da justiça José Eduardo Cardoso já opinou que preferia morrer a  ser hóspede de nossas penitenciárias. São autênticas pocilgas com um alto grau de putrefação, insalubridade e muita indignidade à pessoa humana. Tratar qualquer  delinquente  de forma degradante e desumana é se igualar aos instintos e condutas delitivas desse próprio criminoso.
Mas, em termos conceituais, o que é liberdade? Consultando nossos léxicos tradicionais está lá assentado: liberdade é o poder que tem o indivíduo de decidir ou agir conforme sua própria determinação( ou sua própria vontade). Quando buscamos a definição por exemplo nas Ciências Jurídicas e na área constitucional temos que a liberdade não é um poder absoluto de agir ou decidir conforme a própria vontade do indivíduo. É o velho princípio de- meu direito termina onde começa o direito do outro, do meu próximo e semelhante-  Faz todo sentido esse balizamento e limitação da liberdade de cada um. Imagine quanta anarquia nas relações humanas se cada pessoa pudesse falar ou expressar o que lhe desse na cabeça. Seria um caos com interações muito aflitivas e tensas no convívio humano.
Carlos Ayres Britto, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), cravou essa: “ a liberdade de expressão é a maior expressão de liberdade”. Eis que então entra nessa liberdade uma limitação, ou seja, eu posso até dizer o que eu determino ou quero sobre alguém ou alguma entidade. Todavia, com uma ressalva, eu estarei sujeito a ser interpelado judicialmente por eventuais ofensas a terceiros. São explicações adicionais feitas pelo próprio ministro.
Tais ditames e ressalvas previstas em lei não foram consignadas sem razão e sim concebidas para uma convivência e coexistência harmoniosa e respeitosa entre as pessoas e entre todos os segmentos públicos e privados da sociedade.
Há muitas formas de liberdade que são quase  absolutas. A liberdade de criação artística por exemplo. Se formos pensar com muito rigor ainda cabe aqui alguma ressalva. Imagine por exemplo um artista no ato de retratar alguém  (pintor-fotógrafo). Tem-se  uma tela desse pintor. Uma pessoa que porventura tenha um defeito anatômico, uma deformidade física por uma doença mutilante ou que seja uma pessoa que não gosta de se mostrar! Certamente essa pintura, essa obra de arte vai trazer um impacto negativo no emocional ou bem-estar dessa personagem retratada . Veja que mesmo na criação artística o indivíduo não poderá dizer tudo o que se passa em seus pensamentos, em sua autodeterminação( conceito de liberdade)  de pintar ou escrever tudo que pensa. Deve haver um balizador, um limitador de expressão, no sentindo de apaziguar interesses e sentimentos antagônicos.
 O que é saudável e construtivo nesse mundo de pessoas tão diversas é o exercício de muitas outras virtudes e expedientes que tornem nossas vidas uma troca contínua de conhecimentos e experiências. Assim, paralelamente ao exercício de muitas liberdades por que não o respeito às diferenças? Por que não a cultura da gentileza, do acolhimento ao outro? Por que não o saber ouvir sem desdém ou subestimação  as ideias e opiniões contrárias a minha? Por que não aproveitar um pensamento, uma reflexão positiva, uma iniciativa salutar até de um rival profissional ou político?
O que eu quero deixar como mensagem é que ninguém é dono da verdade. Liberdade assim como o domínio do conhecimento tem limites. Dessa forma e em nome da paz entre as pessoas o melhor é o espírito de respeito , cooperação e compartilhamento de valores e conhecimentos . E não perder de vista que outro bom conselho vem de Sidarta Gautama, o Buda, o melhor caminho é o caminho do meio, o equilíbrio e harmonia em tudo. Entre as pessoas idem.

 “Quaisquer Palavras Que Pronunciamos, Devem Ser Escolhidas Com Cuidado Porque As Pessoas Ouvem E São Influenciadas Por Elas, Para O Bem Ou Para O Mal” (Buda).   Agosto/2015

LIVRE ARBÍTRIO..

OS CARMAS E FARDOS DO LIVRE-ARBÍTRIO

João Joaquim


 Eu já abordei, mas quero colocar de novo em baila um tema de que se fala muito dele nos últimos anos, a liberdade. Eu penso ser uma das faculdades a mais nobre entre todos os animais. É a capacidade ou aptidão mais almejada do gênero humano, não importando que idade ou condição tenha essa pessoa. Ela representa uma das conquistas do indivíduo ainda nos albores da existência. Basta lembrar da criança quando no ato de  engatinhar. E olha quanto trabalho ela exige, nessa fase, dos pais e babás. Afinal trata-se de uma das maiores habilidades na primeira infância, a liberdade de locomoção, a capacidade de ir e vir. Talvez a maior das liberdades ao lado da expressão e opinião. E assim prossegue o homem em sua jornada. Vem o início da fala. A criança já no domínio das primeiras palavras nos dá a maior lição de liberdade. Qual seja, a liberdade do questionamento, do como e do  por quê de tudo.
Em tom espirituoso, mas não menos verdadeiro pode-se afirmar que os filósofos nunca deixam de ser crianças porque eles são perguntadores por excelência. Esta, sim, constitui uma das maiores expressão de liberdade. Eu que sou um noviço e apaixonado por filosofia, não importa que ramo seja; reaprendi a ter o espírito e a curiosidade das crianças, que não se contentam em simplesmente ver alguma coisa acontecer. Elas exercem essa sagrada liberdade da interrogação:  o que é isso? Para que serve aquilo? Como funciona tal equipamento ou fenômeno?  como nasce uma pessoa? E atenção pais, cuidadores e educadores! Nunca dos nuncas reprima uma criança nessa tão legítima e sagrada liberdade da curiosidade. E jamais falseiem ou mintam para seu filho, seu aluno, ainda que essa e outra pergunta soa embaraçosa. Sejam francos, inteligíveis  e honestos a qualquer questionamento.
Assim que a criança vai se desenvolvendo e aumentando o seu campo de conhecimento torna-se de grande significado e determinante o papel dos pais, cuidadores e educadores no crescimento “lato sensu” e formação dessa criança. É da natureza e fisiologia da infância, adolescência e juventude a impulsividade, a irresponsabilidade e a ausência de limites, a não obediência a regras e normas de conduta. Nesse percurso da vida torna-se relevante o papel do adulto, da família, enfim do meio social onde acha inserido de forma interativa esse adolescente, esse jovem em formação. É desse segmento da vida que se pode tirar o provérbio “ dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”.
Pode-se cravar que é dentro dessas diretrizes e princípios que o sujeito pode se tornar uma pessoa cidadã no amplo sentido do termo.
Em se tornando um cidadão de direitos e deveres, frise-se os verbetes direitos e deveres, este sujeito faz jus ao título de cidadania, que encerra civilidade e civismo . O que é um Cidadão?  Indivíduo dotado de dignidade, consciente de sua condição de convivente de uma sociedade onde devem imperar a ordem, o respeito às normas do grupo, às leis e convenções estabelecidas pela sociedade e pelo Estado. Nessa esfera ou trajetória da vida ficam patentes mais do que nunca o exercício e fruição de toda forma de liberdade, mas com responsabilidade. Direitos e deveres em equilíbrio .
É útil e oportuno que se registre que vivemos em uma sociedade onde têm imperado os excessos de liberdade. Muita libertinagem e devassidão .  Seriam toda forma de comportamento e atitudes sem a absoluta preocupação com a liberdade e direito do outro de ter também a sua liberdade de escolha, do estilo de viver, de opinião, de expressão e atos os mais banais do dia a dia.
Uma outra faculdade ou condição inerente ao gênero humano de que usufruem as pessoas se refere ao livre-arbítrio ou a também chamada (em filosofia) de liberdade de indiferença. Trata-se de um atributo que mal exercido traz grandes danos a terceiros, à família, ao grupo social e mesmo ao Estado. Para exemplificar essa pseudoliberdade ou livre-arbítrio vamos imaginar um indivíduo drogadito ou um alcoólatra contumaz. Um e outro estão no livre-arbítrio de ser um usuário de drogas ou ser alcoólatra por toda a vida. No entanto, dessa “liberdade” de se autodeterminar para esses nocivos e perniciosos vícios muitos danos poderão resultar para outras pessoas, muito sofrimento e dor familiar. Vamos explicar melhor.
Imagine, como se vê em muitas famílias, um chefe de família (pai, marido) que passa longos anos no abuso do álcool! Um dia esse organismo vai cobrar a conta. Uma cirrose hepática, um derrame cerebral com sequelas incapacitantes. Pergunta-se: que liberdade ou livre-arbítrio foi esse de no futuro, esse drogadito ou alcoólatra  se transformar num pesado fardo e estorvo para a família?

 Por isso deixo esta última mensagem: nem toda liberdade e livre-arbítrio podem ser absolutos e sem limites porque as consequências podem ser muito danosas, de tormentas  e de grande sofrimento moral, físico e emocional  aos familiares e ao Estado que vão cuidar desse agora incapaz que se entregou aos prazeres da vida. E eles existem aos milhares por aí em nossas famílias, em nossa sociedade. Eu tenho esse tipo na família , tu podes ter,  nós e muitos outros poderemos os ter um dia ,  como um carma, uma cruz eterna e pesada. Quão triste pensar nesses nossos bebuns e outros dependentes químicos no seu danoso livre-arbítrio e futuros trambolhos para os parentes que nada tinham a ver com esses vícios .       Agosto/  15

ASSASSINATO DE CECIL...

QUEM É MAIS CIVILIZADO O HOMEM OU O LEÃO ?
 João Joaquim 



O mundo todo tomou conhecimento do assassinato do Leao Cecil(13 anos) que vivia numa reserva do Zimbábue , África. Fato perpetrado pelo dentista americano Walter J. Palmer, em 01 de julho 2015. A Dra. Jane Goodall, primatologista britânica,  uma das mais famosas conservacionistas do mundo, disse em  nota oficial  não ter palavras para expressar a sua repugnância quanto ao que houve com o leão. “Fiquei chocada e enraivecida com a história da morte de Cecil”. O leão  Cecil era estudado pela Universidade de Oxford – Inglaterra.  A pergunta que fica é : será que o homem está involuindo nos seus sentimentos de amor ao outro, aos outros animais e à natureza ? Estamos nos embrutecendo ?
Quando debruçamos sobre a origem,  primórdios e  evolução da humanidade é oportuno que façamos algumas reflexões comparativas entre aquele homem ancestral de Neanderthal ou o Cro-Magnon  e o homem de hoje, século XXI, ou era da robótica e virtualidade (informática, internet )etc.
Eu trago esta reflexão à pauta sobretudo no que concerne a alguns atributos ou características desse animal que somos nós; sujeito racional, diferenciado dos outros animais ditos inferiores (porque não racionais) e portador de outras qualidades como inteligência elevada, capacidade de amar, de chorar, de se sensibilizar com o sofrimento do semelhante ou não semelhante etc. Estamos perdendo esses sentimentos ?
Além dessas virtudes e faculdades inatas, um animal capaz de aprender e introjetar muitos outros sentimentos e valores como comportamento de solidariedade, atitudes éticas, respeito ao próximo, preservação da natureza e da vida selvagem e muitas outras condutas compatíveis com sua condição de animal superior, inteligente e dotado de razão. Estamos nos enlouquecendo e perdendo a razão ?
Sem contar, como eu acredito, que somos também constituídos de um binômio somato-espiritual, ou feitos de  carne e osso e também de alma. E me arvoro até em afirmar que esta sim, é nossa principal distinção dos irracionais porque nos torna de fato humanos com algumas chispas especiais  e intelecto que nos aproximam de Deus. Será que estamos nos tornando cada vez mais aliados do diabo  ?
Promovendo então um mergulho na História de nossos primitivos representantes, lá nos idos milênios do homem de Neanderthal (homo sapiens sapiens, Cro-Magnon) considero de interesse psiquiátrico ou psicológico e sociológico que façamos uma comparação entre o modus vivendi, a personalidade e a dita racionalidade daquele homem das cavernas e esse homem de nossa hipermodernidade. Esse homem que foi à lua, a marte, que enviou uma sonda para plutão. Esse homem moderno que criou até a inteligência artificial. Será que estamos nos idiotizando ?
Naqueles tempos pré-históricos é natural inferirmos que o homem praticasse por exemplo o extrativismo vegetal, o abate de animais com o objetivo estrito de prover a alimentação de si e da família (tribo). No embate com indivíduos da mesma espécie de outras tribos é provável que houvesse até alguma violência e assassinato. Fato compreensível e aceitável porque é consequência de rivalidade de qualquer animal. É a expressão e o exercício dos instintos selvagens de todo bicho, sendo ele racional ou não, uma autodefesa e preservação da prole, por exemplo.
No que se refere à relação do homem primitivo com a natureza, com a terra. É conclusivo afirmar que esse vínculo e usufruto era de absoluto respeito, uma vez que não se dispunham de ferramentas e produtos químicos que degradassem ou adoecessem o meio ambiente. A exploração de toda forma de vida vegetal ou animal era para a exclusiva sobrevivência alimentar.
Vamos nos aproximar de nossa era, de nosso segundo milênio e idade moderna para cá. Como era o Brasil nos idos de 1500? Uma vastidão de matas e florestas verdejantes, rios e mares nativos, flora e fauna abundantes. Os habitantes:  várias tribos indígenas, uma nação de índios muito parecida nos hábitos e costumes com o homem de Neanderthal ou com a própria  Luzia, essa mineirinha que viveu em Pedro Leopoldo MG  11000 anos antes de cristo ( nome dado pelo biólogo Walter Alves Neves, ao fóssil ali encontrado).
Eis que então a Terra Brasil  e outras plagas desse planeta são ” descobertas” e invadidas por outras nações e homens mais civilizados que os selvagens e silvícolas, primitivos e verdadeiros donos desses paraísos naturais. E as relações desse homem moderno (homo modernus) com a natureza, com o meio ambiente, com a fauna e com o próprio homem? Destruição predatória insana e sem limites, poluição da atmosfera e de rios, montanhas de lixos a contaminar os solos e mares, aniquilamento e extinção de muitas espécies animais, acúmulo de toneladas de CO2 e outros gases tóxicos na atmosfera e muitas outras sujeiras pelo planeta.
 Nas relações inter-humanas, somos a única espécie capaz de queimar o outro ainda vivo, esquartejar ou executar o semelhante por motivos fúteis ou sem motivo algum. Somos uma organização política e estatal que tolera outro estado bandido e terrorista dentro do próprio estado oficial. Exemplos, o Isis e Boko-Haram ( fundamentalistas islâmicos ), PCC- primeiro comando da capital (SP ) e comando vermelho(RJ)  etc.
E nos esportes? Estamos num estágio tal de subdesenvolvimento que se permite que o homem por prazer e superioridade lance um fecha em um leão, deixe-o agonizante e depois dê-lhe um tiro de misericórdia e o decapita e exibe essa cabeça como troféu! Foi o que ocorrera com o Leão Cecil lá no Zimbábue , uma demonstração da crueldade e barbárie de que  é capaz esse homem apelidado de civilizado , inteligente e desenvolvido de nossa era moderna. Imaginem , se ele não fosse!
 E sabem o que mais horroriza e aterra as pessoas de bem e de sentimentos bioéticos ? Constatar  que homens que nos governam e representam, chamados de estadistas e excelências tornem todas essas infâmias e carnificinas legalizadas , com a permissão da caça e abate dos ditos animais selvagens , prática a que eles intitulam de esporte e diversão . Que civilização humana é essa  ? Acho que se  fosse uma civilização animal estaríamos melhor nas fotos e nos vídeos. Nosso repúdio a todos os que fazem e aos que oficializam essa barbárie . Nossas exéquias e nênias ao belo e dócil leão Cecil .  

João Joaquim de Oliveira  médico e articulista do DM

DEVASSOS E LIBERTINOS DA WEB

VIVA A INTERNET, XÔ DEVASSOS E LIBERTINOS 

 João Joaquim 


 Fala-se que a humanidade (coletivo de pessoas) sempre teve seu lado pobre. Seria uma condição inerente ao bicho-homem, este animal classificado de racional, mas eternamente incompreendido e indevassável na sua plenitude?  Eu acredito que nunca a Biologia, as Ciências Médicas e a Neurociência se debruçaram a estudar tanto o cérebro, as emoções e o comportamento humano. O que fica patente é que muito se estuda , um pouco mais  se sabe,  mas muito se tem a descobrir.
Como já bem comprovado, todos os sentimentos e valores que distinguem o ser humano dos demais animais estão centrados  no cérebro. Esse tipo quartel-general (QG) que regula todo o organismo e as mais distintas sensações  .
O que se tem de instigante para os cientistas é que este, sim, é um órgão que ainda guarda muitos segredos e mistérios. A exemplo do cosmos, ele dificilmente se deixará ser explorado por inteiro. Continuará por séculos e séculos a ser uma fonte infinita de busca. Cabe às Ciências e seus pesquisadores continuar na insaciável sede por mais e mais descobertas.
Falar de cérebro  é melhor deixar para especialistas no assunto. O interesse aqui volta mais seletivamente para o comportamento das pessoas e não tem melhor momento para estudá-lo do que nos dias de hoje, época em que a interação e comunicação interpessoal se tornaram tão massiva, tão fácil e em tempo espontâneo e real. É a era da tão propalada internet, da virtualidade com suas badaladas e globalizadas redes sociais( facebook, whatsApp).
As relações humanas ,a ética e a moral, a intimidade sexual das pessoas cada vez mais têm ocupado laudas de revistas e jornais, painéis de debates na televisão e rádio e sobretudo na internet. Diversos especialistas, profissionais e mesmo os cidadãos comuns têm debatido tais questões, temas que antes não tinham tanta visibilidade por censura, rejeição ou mesmo beirando ao que se poderia considerar tabu.
A internet com seus múltiplos aplicativos e redes sociais tem sido esconjurada e considerada uma vilã em toda forma de depravação e subversão das relações e sentimentos das pessoas. Parece, para muitas pessoas,  que ela é a grande culpada pela devassidão, libertinagem e prostituição de seus(as) usuários(as). Eu sou um daqueles que já fiz críticas acerbas e duras sobre esse poderoso veículo de comunicação como instrumento das mais vis perversões de comportamento, de ataques às pessoas, de futilidades, sexismo(pornografia) e outras baixarias. Eu não quero me constituir como advogado do diabo (internet), mas faço nessa questão a seguinte provocação: a internet é de fato culpada pela subversão de valores sociais ?. Ela e todas as mídias de comunicação vieram para deturpar ou corromper as pessoas, enfim, a sociedade ? Voltemos  ao tema  ao final do texto . Estaria se cumprindo a sentença de Rousseau “ todo homem nasce bom , a sociedade é que o corrompe “ ?
Antes, um passeio pelas narrativas históricas de algumas relações humanas, de casos amorosos, de infidelidade conjugais e outros enredos do gênero, alguns nada republicanos.
Nos primórdios da História temos por exemplo os relatos nada edificantes da rainha  Cleópatra(Egito, família dos Ptolomeus), lá nos idos tempos dos faraós. Era a época do apogeu do império romano. Falava-se por exemplo das(os) amantes do imperador Júlio Cesar. Lenda ou não, mas dizem que  Júlio Cesar era homem de muitas mulheres e mulher de muitos homens. 
Nas monarquias britânicas(Inglaterra) é bem documentada a conturbada relação amorosa de Henrique VIII(1491-1547). Em função do rumoroso conflito conjugal desse rei houve até um cisma, uma ruptura da igreja católica da época. Tudo porque o papa se negou a que Henrique VIII se casasse em segundas  núpcias com Maria Bolena. Em função dessas dissensões morais e religiosas, Henrique VIII provocou um racha na igreja e fundou a chamada Igreja Anglicana, uma versão da católica da época,  e Ele(o rei) se tornou o chefe dessa nova  igreja. Essa divisão e dissidência vigoram até hoje.
Na História do Brasil temos os relatos em documentos epistolográficos das relações extra-conjugais de D. Pedro II com a condessa de Barral, cuidadora e preceptora  dos filhos do imperador.  Leia a obra de Mary Del Priore Condessa de barral ou  Condessa de Barral, trinta anos de  um relacionamento lendário com o Imperador do Brasil, D.Pedro II, ocupante do trono brasileiro entre 1840 e 1889.
Dando o salto para nosso dias, é notório o caso do ex-presidente Bill Clinton com a ex-estagiária da Casa Branca, Mônica Levinski ( janeiro de 1998). Por pouco Clinton não foi destituído  do poder. Ele se salvou por pouco. Como amplamente divulgado o ex presidente tinha encontros sexuais com Mônica nos recônditos da Casa Branca.
Um caso muito bombástico que cheirou a uma  tragédia de Shakespeare ocorrera na nossa História recente. Foi o que sucedeu no traumático impeachment do ex-presidente Fernando Collor.  Boletins e jornais, na época, noticiaram que o Sr Collor tinha uma relação ou teve encontros amorosos com a sra. Thereza Collor, esposa de Pedro Collor, irmão do ex-presidente. Como retaliação Pedro se tornou um delator do próprio irmão sobre   suas traficâncias com PC Farias, empresário e ex-tesoureiro das companhas do ex presidente Collor.
O que mostram os casos pontuados? Que o animal humano é um animal perfeito, com um cérebro prodigioso, mas capaz de condutas e comportamentos de pura imperfeição , plenos de vilania, imoralidade, ilicitudes e outras baixezas as mais indignas. Os episódios amorosos extra -conjugais desses personagens históricos bem demonstram que os desvios comportamentais  e morais das pessoas está no DNA desse incompreendido animal, a um tempo racional e sentimental , mas, também sujeito  a se tornar  degenerado e pervertido nas suas relações . É a inteligência a serviço do mal.

Portanto, sem ser defensor, ou advogado de que quer que seja,  eu absolvo a internet e suas redes que foram concebidas como utilitárias e para o bem. Parte das pessoas, é que sempre foram, são e serão promíscuas, infiéis, fúteis e capazes de atos e gestos os mais sujos e bestiais do planeta. A questão maior está na natureza e caráter do homem que, tendo agora esse poderoso veiculo de interação social e comunicação não se vexa e não envergonha de perder todo o pudor , o recato e a honra em mostrar por fora e por dentro, em todo seu íntimo , em todos os seus mais baixos instintos.     Que vivam  a internet e suas mídias, que se vexem os devassos , os desavergonhados  e libertinos de antes e de hoje.

GOVERNANTE TEM UM SONHO

TODO GOVERNANTE É UM TIRANO
João Joaquim

                        
 Nos regimes ditatoriais muitos fatos escabrosos de execução, tortura, assassinatos e tantas outras violações dos direitos humanos não chocam as pessoas e o senso público porque a maioria desses fatos sequer chega ao conhecimento das pessoas. Vamos pegar aqui por exemplo países como Cuba, Irã, Guiné Equatorial e China. Todos sabemos o quanto os regimes desses países são fechados quanto à impressa doméstica e internacional e seus governantes blindados em seus atos tirânicos. A Coréia do Norte nem serve de exemplo porque ela parece ser governada por uma família de esquizofrênicos. Trata-se de uma paranoicocracia vitalícia cuja ideologia passa de avô para neto. O atual ditador, Kim Jong-un é neto do fundador do regime, o PC coreano. Todos os cidadãos sofrem uma espécie de lavagem cerebral e são vigiados em todos os atos de suas vidas(big brother governamental ).
Quando olhamos para muitas nações republicanas e intituladas  democráticas, temos a oportunidade de lembrar o chamado desejo, ainda que velado e dissimulado, de todo governante de se tornar um ditador, um todo-poderoso, enfim um tirano. E não precisamos ir muito longe para constatar esta “velada vocação” da quase totalidade daqueles que chegam ao poder através do voto popular. Ou o conseguem por um revés do destino, pela  morte do titular, caso da Venezuela do atual presidente Nicolás Maduro que era vice e assumiu o poder com a morte natural(câncer abdome)  de Hugo Chavez.
Eu disse que não precisamos buscar exemplos tão distantes desses tiranos maquiados de democratas e citei a questão de nossa vizinha Venezuela, governada à bala, prisões, execuções e perseguição política por Maduro, que de maduro tem muito  de tendencioso a  ditador.  Na esteira desse exemplo temos várias outras republiquetas governadas por presidentes que usam a mesma cartilha e mesma ideologia. Fica patente que muitos leitores (as) já estão com uma comichão de perguntar. Estariam nessa lista uma Argentina da plastificada e botoxicada Cristina Kirchner? Da Bolívia do indigesto e indígena Evo Morales? Do imprensofóbico Rafael Correa do Equador? Só me resta aquiescer. Bem lembrados. Esses são os principais representantes latino-americanos de tiranos cujos sonhos e desejos maiores é o de governar sem opositores, sem imprensa, sem casas legislativas, sem qualquer liberdade de expressão e de opinião.
Para falar a verdade verdadeira e real não precisamos nem sair do Brasil.  Basta  estudar os fatos, os discursos e analisar o que pensam os dirigentes do partido dos trabalhadores de nossa presidente Dilma Rousseff. Esse recôndito desejo de ser um vitalício ditador do Brasil é mais nítido no ex-presidente Lula da Silva. Ele e seu partido (PT) tinham ou têm um projeto de poder, ainda que para tal se valham de expedientes escusos, desonestos e criminosos como o foram os roubos do mensalão e os desvios de dinheiro da Petrobras (Petrolão) ainda em fase de investigação , processos e com algumas condenações .
No arremate e em nome da concisão, falando estritamente de Brasil, temos uma presidente que cometeu entre outros, dois atos típicos de ditadores e comunistas. Basta relembrar a construção do porto Mariel para a ditadura dos irmãos Castro em Cuba. São mais de 1 bilhão de reais que o país deverá receber em datas futuras das  calendas gregas.
A segunda proeza própria de ideologia estalinista foi o programa “mais médicos” com o emprego de pseudomédicos de Cuba (12000 ao todo). Para tanto foram atropeladas leis, ética profissional médica, normais dos Conselhos de Medicina, violação de direitos humanos, trabalho em regime semiescravo, sonegação de direitos trabalhistas ; e muitos milhões enviados para o regime comunista da família Castro, através da organização pan-americana de saúde –OPAS .
E sabem do mais melancólico e constrangedor para o povo e nossa “democracia”? Todos esses desmandos ocorreram porque  temos uma oposição fraca e um congresso frouxo e vendido. Este, sim, o Congresso Nacional ,  é que teria e tem poderes e atribuições para vetar, desaprovar ou referendar atos e planos do(a) presidente. Ou seja, com esse congresso e oposição aí vigentes, nós, o povo, estamos no mato sem cachorro e não temos como cassar( ou caçar) muitos políticos e presidente ( nem como gato). Isto porque as leis e constituição  por eles mesmos(políticos ) criadas os protegem, os blindam, os tornam imunes sem os rigores e alcance de qualquer legislação.
Que triste, não?  Só mesmo no Brasil de Lula e Dilma e de  toda essa choldra dos petralhas, e a oposição do PSDB , cujos próceres  falam, falam de mansinho e resultados práticos que seriam a favor do povo só rendem bate-bocas 


CPI DE CORRUPÇÃO

Diálogos República(veis) de Uma CPI de Corrupção
 João Joaquim


A sessão é aberta e o presidente dirige-se aos membros da comissão
 -Srs deputados, vamos dar início aos nossos trabalhos. Ops, novidade, porque primeiro é segunda feira, depois quem diz que parlamentar trabalha? Mas, deixemos o nosso representante ir em frente.
- Todos assentados e de preferência com os seus celulares desligados ou no silencioso.
-O depoente intimado tem a permissão para se identificar e se apresentar.
Iniciado o interrogatório, tudo volta como dantes no plenário de burburinhos e cochichos. Em tempo: uma, comissão parlamentar de inquérito(CPI) funciona assim: tem o presidente, o relator, o vice-presidente, o depoente e seu constituído advogado. As sessões  podem ser públicas, com órgãos de imprensa presentes, ou fechada e sigilosa. Temos ainda que pode o depoente falar ou ficar mudo. Para tanto basta que ele tenha um “habeas-corpus” ( deveria se chamar habeas-bucca) de responder ou não o que lhe for perguntado. Pode parecer esdrúxulo mas aqui no Brasil e alhures é assim que funciona e regem as leis e  a constituição.
A sessão ora aqui relatada era aberta ao público e à imprensa, por isto podia ser vista e ouvida porque também tinham na cobertura radio e televisão. O presidente está com a palavra e dirige-se ao primeiro parlamentar inscrito.
- Deputado X1, vossa excelência tem a palavra durante cinco minutos para fazer as interpelações que julgar necessárias ao depoente. O nosso representante se ajeita na cadeira, faz uma assuada nas narinas, limpa o bigode, posiciona frontalmente o microfone e começa então o ritual das interrogações.
 A essência  e natureza dessas oitivas são  tidas e sabidas sem importância porque tudo se encerra em um diz-que-não-diz e o arremate ou epílogo  como o de todas outras CPIs  se dá em um plenário de  pizzaria. No plenário de uma dessas comissões , como de resto em muitas outras sessões do congresso é que se passam muitos acontecimentos mais  rentáveis que nem de longe sonha nossa vã e curiosa  Filosofia.
Mas, como estamos no século da informática e dos recursos digitais vamos aos adendos a quem não é muito afeito às redes sociais ( face, whats...).
Deputado X2 ao celular  -Alô! Aqui quem fala é o X2.
-“Pois não deputado, aqui é o Zé Gamela (capataz). Sabe aquele lote de nelore que tava pra chegar? Chegou, das três mil cabeças da boiada, só umas três que teve problema no transporte e foram abatidas. No mais tá tudo nos conformes”.
- Tá bom gamela! Escuta!  aquele criador de cavalos pegou os dez mangas-largas que me comprou?
- Pegou sim dr deputado. Ele deixou aqui um chequinho comigo. Tudo conforme o combinado, no valor de dez mil (entenda-se milhões). Este cheque eu posso depositar naquela sua conta da caixa?
- Não Gamela, este você deposita na conta do Silva Naranga( entenda-se citricultor)  , meu cunhado que você já conhece.
A sessão tem curso e muitos dos membros da referida comissão comportam-se como se nada a eles dissesse respeito. Uns coçam as caspas da cabeça, outros consultam e-mails e o  whats, outros coçam algumas partes mais pudendas  e continuam naquele  mundinho à margem  da realidade brasilis e dos embates com o depoente da sessão cepeitiana .
O deputado X3 parece no território da lua, todo refestelado e bem repoltreado em sua cadeira. Como seus pares, passa em revista as últimas notícias no i-Phone. Eis que chega uma chamada
 -Alô. Oi meu bem, só pra lhe falar que meu carro chegou. Sabe aquele  meu Audi 2,0 de 10.000 km rodados,  o gerente pegou ele na troca. Eu gostei mesmo foi da BMV. Ela é mais confortável e melhor de levar as crianças à escola. Dei um cheque de nossa conta, foram só 330 de troco (entenda-se mil).
-Tá tudo certo amor, o importante é seu gosto.
 Já passam das 19 horas  e alguns inquiridores da sessão já se foram embora.
O deputado X4 está de cochichos com o colega do lado. X4 já teve a palavra . Aliás, foi ele o mais breve na  sua inquisição. Ele recebe uma mensagem no whats
 -Você me pega aqui às oito? Já saí do salão, estou de cabelos e unhas prontas. A Zuleide (cabeleireira) me falou que estou chiquérrima. Eu disse pra ela que queria ficar bonita pra você. Mas, não falei seu nome.
- Ok amor, legal, me espera aí na porta do salão. Estou naquele mesmo carro preto chapa branca. Me aguarde.

Como se depreende dos diálogos no plenário de uma casa legislativa, seja em uma sessão aberta ou fechada à imprensa,  no centro ou em seus recônditos há muitas outras coisas que não sonha a nossa  mais  vã ou fútil Filosofia.  

HERANÇA CANINA..

OS CACHORROS COMO HERANÇA
 João Joaquim 


Assim se passa a História entre dois vizinhos humanos, de um lado um morador solitário , do outro uma viúva( “de marido”), mas na companhia de um filho gente e filhos cachorros.  Assim relata Luziano Cerbino( o sr Luzi ).
 A rotina de Maria Pancrácia Vanilina, vulgo Vani, era sempre previsível de todos. Levantar, fazer o café, trocar água e ração dos cachorros; eram três bichos; jogar os excrementos fora, tomar o café da manhã, dar uma ajeitada na casa e adivinhem o passo seguinte? Isto mesmo, tudo previsível : passear, como ela mesma referia, com os filhos quadrúpedes.
E naqueles ligeiros encontros e despedidas, dona Vani foi pontuando-me sua biografia. Ela tinha uns 55 anos , talvez um pouco mais posto que ela tinha dois filhos, 28 e 30 anos. Um já casado, o outro morava com a mãe. Ela ainda esperava pela realização de ser avó.
-Dona Vani, a senhora não cansa dessa rotina que, diga-se com efeito, não é das leves?
- Sinto-me, tem dia, já fatigada dessa obrigação, mas preciso cuidar deles (cachorros) porque se não for por mim ninguém faz nada pela alegria e bem-estar dos animais.
- isto mesmo dona Vanilina! Animais precisam de liberdade. Nós somos livres e sabemos o quanto é bom não viver entre muros ou  quatro paredes. Nós ainda podemos sair de forma livre, sem nenhuma rédea, sem canga e sem coleira. Imagine para uma criatura dessas de quatro patas. Não ver o sol nascer, se quer respirar o ar mais puro da atmosfera, não ver ao menos o sol e o céu pela janela. Tudo vai contra a natureza e o instinto da espécie. E por esse termo não hei de esquecer-me o quanto quer bem aos bichos.
Vani era também uma espécie de pessoa bem resolvida com a vida. Ela tinha se enviuvado aos 32 anos e não quisera mais compromissos esponsais. Tivera alguns namorados na viuvez, mas nunca compartilhou o mesmo teto com esses cônjuges. Para ela o bom mesmo era ter uma vida desimpedida, ou como se diz no popular sem peias nem meias.
- Na verdade, seu Luzi (Luziano Cerbino) ,essa prática de ter cachorros foi herança de meu marido. Ele tinha essas doenças de cabeça e o que alegrava o homem  era cuidar desses animais que a gente criava em casa. Depois eu mudei para um prédio e não tive como deixar as crias pra trás.
Vani parece que não era afeita a falar do passado do falecido. Até onde informei, ele morreu suicidando-se. Tratamentos psiquiátricos e analíticos foram muitos. Todos infrutíferos. Ao que sugere era um caso de transtorno de afetividade e humor bipolar. Foi uma tragédia marcante. Como marido e pai o ex foi pessoa de puro caráter. Fora os sintomas de cabeça e relações humanas difíceis , não havia o menor reparo a fazer naquele homem.
- O que a senhora pensa das pessoas que vivem em cidade grande, confinadas em restritos apartamentos, têm tarefas de casa, precisam de trabalhar fora para ajudar no orçamento doméstico e com tudo isso ainda criam cachorros? Afinal os pets exigem cuidados como se gente fosse; tem médicos , ração, higiene, afeto e muito mais.
-Eu não sei seu Luzi . Eu só sei que depois desses meus bichos eu só quero bichos de pelúcia. Tanto que esses, que são a segunda  geração deixada pelo ex já são castrados e quando morrerem, morreu também minha missão de cuidar de cachorro.
- No condomínio (continua Vani), onde moro há 15 anos, já houve brigas de vizinhos em razão de animais. Casos houve em que até a justiça interveio para decidir quem tinha razão. Teve um caso mais complicado com um condômino de nome Anateu Biliário que tirou até arma para outro morador. Era um senhor já de idade o dono dos bichos . Ele tinha dois vira-latas que choravam e latiam muito para sair do apartamento. Depois ele deu os bichos e tudo se apaziguou.
- Olá, bom dia dona Vani! Mais um dia com os filhos quatro patas?
- Mais uma rotina. Amanhece o dia e eles já fazem festa, latem, sorriem porque sabem que vão passear.

O que se depreende é que Maria Pancrácia (Vani) era pessoa normal, boa e de muita humanidade e lucidez. No fundo e em sumário, ficava patente que viúva de marido e no zelo das crias do ex ela tocava a vida sem resmungar. Ao que sugere era sua sina .  Além da pensão do marido  foram também deixados os bichos  como herança. Contanto o que se possa questionar nas lides diárias com aqueles pets,  ela era pessoa feliz e bem resolvida.                       Agosto/2015

LÍNGUA PORTUGESA

CONFUSÃO ORTOGRÁFICA NA  LÍNGUA PORTUGUESA
 João Joaquim 


 Nossa língua portuguesa como já a encantou e cantou os grandes escritores e poetas, a começar por Luiz Vaz de Camões,  foi e será sempre bela. E o será  mesmo sendo considerada a última flor do Lácio (latim vulgar e clássico) como a sonetou nosso parnasiano Olavo Bilac. Agora, cá entre nós, falando à boca miúda, como nosso idioma é maltratado. E não se trata de um fenômeno dos menos escolados ou de pouca leitura. Trata-se de um desleixo até de meios acadêmicos, estudantes universitários, escolas e muitos doutores que aprendem apenas as matérias técnicas das profissões. Deveria ser uma disciplina obrigatória em todas as formações  técnicas acadêmicas .
Nessas questões eu falo com certa autorização, por exemplo, no ambiente médico. Muitos profissionais da área de saúde, até elaboram bem um laudo de exame, de um atestado, de uma conclusão diagnóstica. Algo mínimo  de que lhe é exigido. Quando esse doutor tem que fazer um ofício, uma carta ou qualquer relatório dirigido a quem não é do mesmo jargão etc, aí sim, é certo se constatar os erros e asneiras cometidas no emprego de um Português padrão.
São gafes, às vezes grosseiras, com emprego verbal impróprio, erros de sintaxe, de concordância verbo-nominal sem contar os casos de  escritas ininteligíveis e outras graves ofensas ou crimes de lesa-ortografia ou lesa-idioma. Tais delitos em outros países e culturas, como assentes em respectivas constituições,  têm até uma pena prevista, o de voltar para as salas de aula, a fazer uma reciclagem , até aprender corretamente o idioma nativo. O bom de muitos desses doutores médicos é que eles, muita vez, sabem ou dizem saber até o idioma bretão. Só mesmo com nossas diretrizes educacionais e costumes  no Brasil.
Agora, não pensem que são os mais incultos ou desleixados com nossa língua os que maltratam nosso idioma. Aqueles velhinhos  de nossa inoperante e desenxabida Academia Brasileira de Letras (ABL) têm também o seu papel . Alguns mais afeitos ao que ali, na casa de Machado de Assis,  fazem nossos mais afamados escribas devem lembrar. Isto mesmo! De vez em quando eles sem inspiração para coisas mais sérias e produtivas inventam de reformar a língua. Já imaginaram? Reforma ortográfica da língua portuguesa (ROLP), que vira uma baita confusão . Dizem que em Portugal eles pouco estão lixando para tais mudanças. Agora imagina para um estrangeiro que aprende o Português e depois depara com essas reformas . É de pirar qualquer turista. É um aprende e desaprende a perder de vista.
A última reforma , eu por exemplo, não gostei nem um pouco. Aboliram o acento circunflexo (^) de algumas palavras, o agudo de outras (´), cortaram o hífen de algumas locuções ou compostos (-); e tremei com esta, aboliram o trema (¨) de tudo quanto é vocábulo. Não, não, eu fiquei amolado e inconformado com a revogação ou cassação de nosso simpático trema.
Vamos pegar aqui alguns exemplos de vocábulos que perderam sua elegância sem aquele chapeuzinho do circunflexo. Voo é um desses casos.  Quem assim teve essa ideia parece que voou na maionese. O vôo sem esse acento seria como um comandante sem o quepe ou o papa sem o solidéu; não tem a mesma autoridade. Eu não abençôo e tenho enjôo só de imaginar nessas mutilações de nosso vernáculo .
Quanto ao agudo. Tomemos a própria palavra  idéia. Parece que sem esse sinal inclinado (´) indicando 45º ela perdeu aquele sentido de saudação, seria como um braço erguido apontando o horizonte. Ou seja, cada acento é uma espécie de adereço , um adorno a mais para os vocábulos. Parece que nossos imortais da ABL ficaram com inveja do idioma inglês , onde não se tem acentos.
Dos compostos, um exemplo é a expressão dia a dia. Falar agora dia a dia a gente não sabe se é um dia após o outro ou se é o cotidiano( dia-a-dia), a rotina da pessoa. Antes com e sem hífen tinha-se uma clareza meridiana do significado da expressão , agora a expressão única, não composta, se tornou mais obscura.
E o trema? A lingüiça não tem mais aquele cheiro e sabor da pronúncia. Eu inclusive, me tornei de uma  vontade flácida , desmilinguida ,  em comer ou oferecer lingüiça sem trema. Outra que perdeu a firmeza foi liquidação. Sem o trema parece liquefação, aquela coisa aguada e sem muita consistência .
 Enfim, para não ficar em modorrentas delongas vamos pegar a preposição para e o verbo para (3º pessoa do indicativo): antes, esse verbo para (parar) tinha o agudo para diferenciar da preposição homógrafa(para). Olhe que quiproquó fica agora esta frase: o motorista para o táxi  para o ônibus . Quem é verbo? Quem é preposição?

Todavia, apesar dessa trapalhada dos sucessores da casa de Machado de Assis( nossa morna e infrutífera ABL), eu sugiro a todos, sejam doutores ou jornalistas, que prestem mais atenção ao serviço, seja no falar ou no escrever, porque isto faz toda a diferença.  Agosto /15