segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ZIKA E ZICA

 BRASIL,  PAÍS DE UM ZICO E MUITA ZIC(K)A

João Joaquim 

ARTIGO SOBRE ZIKAVIROSE PARA SE RELER DAQUI A 2 ANOS. No  país inteiro, a maioria das pessoas está assistindo , aterradas e esbaforidas às notícias da epidemia da zikavirose (infecção pelo vírus zika). E então, como médico, com formação em clínica médica e medicina interna também me senti no direito de algum alvitre, o popular palpite ou pitaco.
Segundo nos conta a história, o vírus foi primeiro descoberto na floresta zika, em Uganda em 1947 . Em 1952, dois cientistas, o médico George Dick e o insetologista Alexandre Haddow (escoceses) comprovaram pela primeira vez o neurotropismo (infecção cerebral) do vírus. O experimento foi feito em ratos e achava-se que não haveria infecção nem sequelas em humanos( síndrome congênita do zika vírus). Com essa convicção os estudos foram encerrados. Como se vê parece que faltou mais curiosidade àqueles pesquisadores escoceses .
Decorrentes de fatores culturais, de boatos, e poucos dados biológicos do mosquito e do vírus surgem então o pânico, o desespero e tantas outras sugestões de nossa sociedade. E aí todos sabemos, como vivemos em uma Pindorama cada vez mais chafurdada em deseducação e ignorância, acreditar em boatos é mais fácil do que esperar e  buscar o mais correto e científico .
Alguns mitos e boatos, sem nenhum fundamento como estes :  o uso de vacinas vencidas causa a zikavirose. A redução da medida do perímetro cefálico, recomendada pelo ministério das doenças (ainda o chamam de ministério da saúde), se dá para baixar o número de notificações. Era 33, agora o perímetro indicado é 32 cm. Outro mito: a modificação do edes egípcio (o mosquito aedes aegypti) fez surgir o vírus zika. Ou seja, o Brasil já anda com tanta zica que ainda inventaram mais essas da boataria. É muita ziquizira ( urucubaca ) para um povo com tantas outras como as que nos infestam  vindas do  mundo dos políticos .
Por conseguinte eu resolvi então emitir meu parecer, nesta leve digressão. Que ela soe como um vaticínio, um augúrio. Daqui por exemplo 2 ou 3 anos, uma dessas hipóteses  se confirmará.
Para o desfecho do que hoje pode-se considerar uma pandemia, eu vou buscar alguns casos semelhantes  na história. Para quem não se lembra, vale o esforço de revisitar os registros da revolta da vacina, início do século XX , novembro de 1904.
Na época, era diretor de saúde o médico e cientista Oswaldo Cruz. Governo do presidente Rodrigues Alves .  O certo é que com o decreto da vacinação obrigatória contra a varíola ( já extinta no mundo)  ele , Dr Oswaldo Cruz,  foi quase linchado. As crendices, os boatos, as charges e pânico divulgados pela imprensa da época eram grotescas e risíveis. A própria imprensa não levava muito a sério a eficácia da vacina.
Mais recentemente tivemos na África, os surtos do vírus ebola, epidemia plenamente controlada. A epidemia (quase pandemia) da gripe suína em 2009 (H1N1). Foi um pânico e correria mundial. Em pouco tempo tudo se resolveu inclusive com a produção da vacina(H1N1) ao alcance de todos.
Possíveis consequências e diretrizes em relação à zikavirose. Falo aqui como médico e expectador das cenas culturais, costumes, índole da sociedade e da Política brasileira. Hipótese 1. Passa-se o pânico, tudo volta ao normal. A doença entra na estatística do SUS, do ministério da saúde. Nessa possibilidade entra até , por determinação do  governo do PT, a concessão de alguma bolsa-microcéfalo. Revela-se em um absurdo, mas enfim , tratando-se de governo demagógico e populista tudo é possível. O que o atual governo deveria fazer seria implementar medidas gratuitas pelo SUS de controle de natalidade. No momento o que se sabe é que o vírus só traz risco para gestantes, e não todas. A placenta é um grande filtro para o feto. Nem toda infecção da mãe chega ao feto.
Hipótese 2. Descobre-as a vacina  anti-zika. Torna-se obrigatória a todas as meninas e mulheres em idade fértil e tudo sanado da forma a mais simples, cientifica e ética. A exemplo do que está sendo feito com a prevenção do  HPV, causador de câncer de colo uterino. A prevenção é recomendada   em adolescentes ( mais as meninas).
Se não chegar à síntese da vacina e confirmada a relação vírus e microcefalia, resta como em situações similares,  de todos baixar a guarda, perder o pânico geral e continuar aumentando o grupo de microcéfalos. A exemplos do que ocorre com outros riscos. Quer exemplos  da chamada síndrome de Estocolmo ou da acomodação ? Será que diminuiu a população de síndrome de Down, com a certeza e ciência de todos( especialmente mulheres)  de que gravidez acima de 35 anos é fator de alto risco para filhos com esta doença (síndrome) genética?
 Outra pergunta . A consciência da sociedade de que sexo sem preservativo (parceiros de comportamento de risco) transmite o HIV reduziu os casos de AIDS no Brasil e no mundo ? Leiam os indicadores  de infecção aidética no Brasil e no mundo .
As estatísticas tanto dos nascimentos de Down quanto das infecções pelo HIV atestam bem o quanto as pessoas, passado o alarme geral, entram num estado de acomodação e aceitam certas realidades impostas como essa do vírus zika e outras mazelas em saúde pública ou mesmo de natureza diversa no cotidiano da sociedade . Todas são doenças sociais , com alto impacto na qualidade de vida, na segurança e bem estar do cidadão .
 Como exemplos, o custo de vida mais caro por causa da inflação, vale-transporte e passagens reajustadas de forma arbitrária, coletivos urbanos infestados de delinquentes, outros tantos ônibus queimados de forma escancarada pelos blacks blocs   ,  educação e SUS pedindo socorro, estradas mal conservadas e mortes nas rodovias todos os dias etc. São mazelas e cancros sociais com os quais vamos tendo um convívio  de bom grado e passivamente. Essa é a nossa índole, da eterna tolerância, da acomodação, da aceitação de tudo como normal...etc...E a cada surto deste e outro fato nefasto, vêm nossos governantes com discursos hipócritas, eleitoreiros, demagógicos ; e logo logo, tudo se torna como dantes no país dos muitos Abrantes.
Com a zikavirose, a tendência é a mesma. Daqui 2 ou 3 anos a gente confere, qual destas hipóteses se confirmará . Tomara que a mais humana e benfazeja , a da vacina anti-zika . 

João Joaquim - médico - articulista DM - joaomedicina.ufg@gmail.com   WWW.drjoaojoaquim.com,   facebook .com   João Joaquim de oliveira  
ESCOLAS DE MEDICINA E MÉDICOS EM XEQUE  

João Joaquim  


Eu começo este artigo de opinião com um pensamento que talvez sirva para estudantes de Medicina, estagiários , residentes e mesmo muitos outros colegas médicos, novatos ou veteranos . Digo então: -Todo médico antes de tudo deve ser médico- Trazendo pro vulgar seria:  todo médico, antes de qualquer especialidade deve ser um médico com no mínimo uma visão básica em clínica médica. Isto é o beabá da profissão que exige uma graduação de seis anos.
 Não é pouca coisa. Este tempo de faculdade é mais do que o suficiente para que o estudante saiba 90% de todas as doenças que acometem o organismo humano. Eu vou repetir para que fique bem claro. De cada 10 doenças estudadas pela medicina, 9, ou seja 90% são doenças repetitivas, encontradiças nos ambulatórios, hospitais-escolas e setor de urgências de qualquer hospital. Ou seja, o aluno de medicina tem a obrigação, sem ser um gênio, de sair um especialista em 90% das doenças que acometem a população.
Mas, o por quê dessas considerações iniciais? Trata-se da preocupação com o despreparo, com o que se vê na prática da medicina em nossos dias. Em termos simples para a melhor compreensão de quem lê esta matéria, temos como demonstração da qualificação técnica de um médico duas etapas de sua formação, o que ele solicita de exames e sua prescrição de cada atendimento.
Para mais clareza e exemplo prático. Quando um paciente sai de um ambulatório ou consultório, ele vai portar uma receita apenas, no caso de uma diagnóstico mais simples, ou receita  e um pedido de exames. Nesses dois documentos o médico se revela por inteiro. A prescrição terapêutica pode conter itens de medicamentos e outras recomendações. Esses  dois documentos    encerram por inteiro a qualificação do profissional. Receita + pedido de  exames= competência ética e profissional do médico.
O que tem se visto por aqui, acolá e alhures é de assustar e de estarrecer em se falando de aptidão, preparo e conhecimento no tocante ao exercício da medicina.
E atenção! Em nome da justiça com as faixas etárias e com a experiência, é bom que se diga o seguinte:  Não se trata de prática exclusiva de recém-formados e nem dos não especialistas. Tais condutas inadequadas, não técnicas e fora das diretrizes médicas têm sido vistas por neófitos, mas também por veteranos da profissão. Duas hipóteses se fazem necessárias de pronto nessas cenas , como prováveis causas . Os mais “experientes” se estacionaram no tempo e não mais atualizam porque se acomodaram e sentem bem em suas zonas de conforto e boa remuneração. Os novatos, com insuficiente preparo, estão revelando o quanto mal preparadas estão as faculdades de medicina em oferecer uma formação de boa qualidade no plano ético e técnico-científico. E mais uma justiça: Não são todos os profissionais nesse rebanhão . Existem profissionais já idosos e altamente atualizados ,se nivelando também com outros egressos dos estágios e especializações , muito bem antenados com o que há de melhor , conforme pesquisas e a chamada medicina baseada em evidências.
Tem sido de conhecimento público que as universidades públicas estão, em sua maioria, sucateadas. Tem havido uma deficiência  de tudo. De laboratórios, equipamentos a um corpo doente qualificado. No caso das faculdades de medicina é impossível ter uma boa formação médica sem um hospital-escola a altura do que exige a profissão. É impossível  imaginar um curso de medicina sem um excelente suporte  de anatomia, sem outros laboratórios e para fecho da formação, um hospital-escola exclusivo com um grupo de supervisores e professores altamente treinados, qualificados e dedicados ao estágio dos futuros médicos. Os hospitais-escolas,  ou supostos tais, de hoje, tem sido improvisados para esse fim, muitos não têm estrutura para o treinamento dos formados e em período de residências .
O que se constata na teoria e na prática da formação de nossos médicos que têm entrado  no mercado de trabalho está totalmente fora dos padrões do que deveria ser. Daí os absurdos e as condutas  fora de noção a que estamos assistindo dos profissionais que atendem, medicam e pedem exames dos pacientes. Isto é preocupante! O que há muito tempo vinha se mostrando ruim tem piorado, que é a correta qualificação e preparo dos profissionais que vão lidar com a saúde e vida das pessoas.
 A sociedade e a educação como um todo não podem seguir a tendência das ideologias e desejos de  um grupo de gestores e políticos que comandam os destinos do Brasil. A Medicina, profissão que lida com o mais nobre do ser humano, deve ser nivelada com o que há de melhor no mundo e não com formação de baixa qualidade e incompetente de outros países latinos e caribenhos.  Fev./2016  

João Joaquim - médico - articulista DM

A MORTE DE MUITOS ECOS

João Joaquim 


Ao pegar minha esferográfica para compor esta crônica, veio-me a ideia de uma reclamação a Deus. Mas, recuo-me ante aquele princípio:  Deus tem razão que a razão humana desconhece. A queixa que teria a fazer seria: por que todos temos que morrer? Em que pese algumas pessoas não morrer dado que ficarão  apenas encantadas, como sentenciou João Guimarães Rosa(27.06.1908 - 19.11.1967)  que morreu três  dias depois de  ser imortalizado pelo fardão da Academia Brasileira de Letras (ABL). Segundo dizem ele padecia de tanatofobia. Vejam que ele tinha razão .
Mas, enfim esta semana fiquei amolado ao saber da morte natural de um grande personagem do mundo contemporâneo da cultura e da filosofia, o escritor italiano Umberto Eco( 05.01.1932 – 19.02.2016) . Sem trocadilho, ele não foi um nem pouco  mas muito aberto a todos os ramos de conhecimento, de jornalismo, de histórias, de civilizações e do pensamento ocidental. Sua influência, em todos os ramos do conhecimento, já fazia muitos ecos pelo mundo e reverberará  para sempre em vastos segmentos de cultura e das ciências.
Há pessoas que dada a maneira de viver e a contribuição que dão à sua comunidade, onde inseridas ou ao mundo, não deveriam morrer nunca. E não precisam ser famosos, midiáticas. Imaginemos por exemplo um líder comunitário, um voluntário que dispõe a ser um agente transformador com as habilidades que ele tem? O quanto de falta ele faz quando morre. Esta pessoa, sim, merece o qualificativo de importante pela importância (não famosa, às vezes) que ela têm às pessoas mais carentes. Algum indivíduo  importante pode ter fama, mas nem todo famoso é importante. A imprensa está infestada de famosos sem nenhuma importância. Muitos se preocupam em apenas acumular patrimônios, fortunas ,tesouros; enfim cuidando apenas de seu umbigo.
Há certas pessoas que quando se vão me deixam contrariado. Lembra-me agora uma pessoa que quando faleceu me deixou vários dias constrangido. Falo da médica e voluntária Zilda Arns(25.08.1934- 12.01.2010). Ela faleceu no terremoto do Haiti, foram mais de 300.000 mortos.  Essa brasileira, compõe, o panteão daqueles que fazem muita falta quando morrem. São aqueles poucos que deveriam ter imunidade contra a morte em face do quão importantes são para todos que o rodeiam, ou que deles buscam algum amparo e consolo. Zilda Arns foi a fundadora da Pastoral da criança no Brasil.
Mas, enfim, mais um desses se foi. O livro (e filme) mais divulgado e conhecido de Eco é o nome da Rosa escrito em 1985. Sua última obra é número  zero, uma espécie de cartilha do mau jornalismo . Recentemente ele deu uma entrevista para a Globo News, onde sem meias palavras fala sobre cultura, jornalismo difamatório , política e até mesmo sobre o fanfarrão e histriônico Silvio Berlusconi,  ex premier da Itália.
Nessa matéria(entrevista) ele fala por exemplo sobre como o jornalismo pode ser exercido de forma tendenciosa e ideológica, quando não deveria fazê-lo. Expresso de outra forma: se um jornal não pertence a um partido ou a um grupo político seu papel é o de informar com absoluta isenção sem viés ideológico. O enredo desta obra(número zero) busca cenas da Itália nos anos 1990. Mais precisamente, segundo o próprio autor em 1992, quando o país experimentou um segundo declínio.
Por fim, o notável Umberto Eco pontuou sobre a cultura, os personagens, a influência e informações da tão propalada e massificada internet com suas mídias sociais.
E então nosso polímata e eclético escritor, semiótico  e humanista não poupa adjetivos desqualificantes ao mundo dos internautas. Para ele, como subentende  das estrelinhas e nas contrações labiofacias, a internet sendo de acesso sem normas e sem regras, permitiu também uma rede de imbecis, quando todos dizem as imbecilidades e asnices que querem. Ou seja o mundo virtual é uma teia de informações que mais deformam do que agregam algum valor de bom e útil a esses desocupados e vagabundos . Todas aquelas abobrinhas , futilidades, e pornocultura que o sujeito diria nos bares e botecos da vida, agora ele diz pelas redes sociais, numa confraria de idiotas e desinformados . Portanto, falou e disse esse luminar e avatar da literatura , cultura e pensamento atual.                    Fev./2016


João Joaquim - médico - articulista DM

FACULTATIVO...

FICA FACULTATIVO, ISTO É , PROIBIDO O TRABALHO NESSE DIA

 João Joaquim


Assim se passa a história do Sr. Fidas Honorato da Silva, funcionário público do governo de Goiás. Com uma ressalva de que mudamos-lhe o primeiro nome (para Fidas ), no sentido de anonimato e proteção da honra pessoal. Dado o ineditismo do caráter e comportamento de um agente público houve-se por bem publicá-lo sob a forma de crônica.
O seu Fidas, como o nominavam, no âmbito dos amigos e no ambiente de trabalho ingressou no atual emprego como um humilde barnabé, como contínuo ou auxiliar de serviços gerais. Em face de sua pertinácia e dedicação às tarefas a ele confiadas é que chegou a auxiliar administrativo no setor de recursos humanos daquele órgão estatal.
Se tem uma sigla para caracterizar o nosso servidor seria CDF ou colaborador dedicado e fiel. Tal era a sua urbanidade, civilidade e pontualidade no cumprimento da cartilha de qualquer trabalhador a serviço do Estado e do povo. Assim era o seu Fidas Honorato.
Aqui vão as cenas e passagens que mais enobrecem ,de  forma excepcional, um caráter referido como probo, puro e ilibado de um cidadão operário do povo, porque é ele pago através de tantas taxas e tributos, impostos e outros encargos  cobrados pelos governos.
Era um feriado de 5a feira, como tantos existentes no Brasil de meios de semana. Ao final do expediente de 4ª feira , antes do feriado da 5ª seguinte, foi fixado um comunicado no mural da sessão de trabalho do nosso Fidas, de que a 6a feira pós feriado, seria ponto facultativo. Nosso servidor, é útil esse registro, graças aos esforços pessoais cursava o 2º ano de Administração de Empresas, em faculdade pública. E aos 55 anos era um exemplo de empenho para os colegas mais jovens. Como de hábito, naquela 4a feira nosso servidor despediu dos colegas, do chefe da sessão, digitou sua saída no ponto eletrônico, pegou o paletó no armário; trata-se de um detalhe não menos importante; e foi para casa, para seu costumeiro descanso.
No feriado da quinta seu Fidas passou no recato doméstico e ajudando a esposa, Sra. Auriche de Lima Silva, em algumas tarefas domésticas. Como de costume ,conferiu as tarefas escolares dos filhos adolescentes de 17 e 15 anos. Após o jantar, nosso Fidas comentou que iria descansar e deitar mais cedo, pois era sua intenção ir ao trabalho e colocar alguns serviços atrasados em dia para a semana seguinte. E assim foi procedido. Na 6a feira, seguindo sua rotina normal ,nosso servidor chegou ao local de trabalho às 8:00 horas em ponto e dá-se o seguinte diálogo com o guarda de portaria.

 - Bom dia Sr. Fagundes! Nélio Fagundes era o vigilante de plantão naquela 6a feira.
- Bom dia seu Fidas. Mas, o que vem fazer aqui. Hoje é ponto facultativo.
- Por isso mesmo, como é facultativo, eu vim adiantar algum trabalho que está atrasado para a semana que entra.
Nisso, o nosso guarda da escala(plantão)  chama o chefe, que sumariamente encasquetou com o argumento de ser impossível qualquer funcionário entrar no prédio naquele dia. Era uma proibição expressa. Seu Fidas apelou então para o comunicado. Era o mesmo apenso na entrada do imóvel daquele órgão do governo, 6a feira, dia tal, ponto facultativo no funcionalismo do Estado.

- Se é facultativo, ponderou por fim, o seu Fidas Honorato, eu tenho a prerrogativa de não trabalhar ou trabalhar, conforme a minha vontade.
Para dar mais peso e consistência na sua disposição em trabalhar naquele dia, que era útil  e de trabalho para muitos brasileiros, nosso servidor Fidas abriu no seu smart o dicionário Aurélio e leu  ao guarda Fagundes e seu chefe  de forma enfática e bem escandida: fa-cul-ta-ti-vo.  1-Que dá a faculdade ou o poder de alguma coisa 2- Que permite se faça ou não se faça algo (alguma coisa).
Com um meneio de cabeça e cenho de discordância retrucou  o chefe da vigilância.
- Pode ser este o sentido de facultativo mas neste dia, como de muitos outros feriados de 3a ou 5a feira todos fazem uma ponte e fica proibida a entrada de funcionário na sessão de trabalho.
Restou ao nosso probo e CDF servidor Fidas voltar para casa e remoendo o significado de alguns motes, slogans e nomes de serviços públicos do Brasil .

- Ponto facultativo, data em que se é proibido trabalhar no serviço público.
- Pátria educadora. Por isso que nossa educação vai de mal a pior.
- Pronto-socorro! Por isso que o socorro é tão tardio e muitos morrem na fila.
- Zika vírus. Este tem cumprido o seu papel. O Brasil de fato continua na maior zica de toda sua história.                         Fev./2016    

João Joaquim médico e articulista do DM

CUPIM E....


          
                         CUPIM E CORRUPÇÃO
João Joaquim  


 O assunto entre aqueles dois amigos envolvia muitas amenidades, cultura e trivialidades do dia a dia. Como  é costume ocorrer em momentos de “happy few e happy hour”. E, entretanto, assuntos profissionais também eram entremeados, nessas descontrações. Dr. Chimango Capes Naves, Chico Naves para os íntimos, advogado criminalista; e o professor Francisco Silvestre, biólogo entomologista ,eram amigos da fase colegial.
Cada um dos amigos mirava sua carreira desde a juventude e exerciam magistralmente o ofício escolhido. Mas, não perdiam de gosto a visão e atualização de muitas questões ligadas a cultura, política, artes em geral e esportes. Todos sabemos do quanto é importante e faz diferença quando se exerce uma profissão como uma simples mercadoria ou pura vocação.
Vocação e devoção são dois qualificativos que bem adéquam aos nossos dois personagens desta crônica.
Francisco Silvestre fez graduação em biologia na Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Ontário, Canadá. Ele se tornou especialista em insetos, mas tinha uma especial predileção no estudo de formigas e cupins. Vai lá entender , mas vocação é vocação e ponto final.
Chico Naves graduou em direito pela Universidade Federal de São Paulo(Unifesp) de Ribeirão Preto e mestrado pela Unisinos  -RS. Sua tese de mestre em direito criminal versou sobre os chamados crimes de colarinho branco. Como exemplos os de peculato, improbidade administrativa e corrupção; aqueles delitos cabeludos que permeiam o subterrâneo  dos políticos .
O lado bom e atraente em cada encontro de Chico Naves (Dr. Chimango Capes) e Silvestre (professor Francisco Silvestre ) era o interesse de cada qual pelos recônditos ou intimidade da profissão do outro. E ambos não se furtavam em falar de forma generosa e traduzida sobre muitos detalhes e incógnitas de suas atividades. Dados os laços de mútua intimidade não era incomum haver alguma corneteada nos insetos de um e nos clientes do outro.
Como mostra desses pitorescos sarros ou deboches de Chico (o criminalistas) para Silvestre ( o entomologista)  e vice-versa , vale a pena atentar para algumas digressões entre os dois amigos em suas horas do ócio.
Silvestre se deleitava em falar de seus bichinhos do mundo subterrâneo. Os cupins eram os seus prediletos. A qualquer pergunta sobre esses térmites ele o fazia como se fosse de primeira.
- Os cuuupiiins, assim bem frisado, são os isópteros( asas simétricas ) mais típicos e representativos da natureza. São por demais sociais e exemplo do mais eficaz cooperativismo que se tem no mundo animal. São xilófagos e xilófilos. São tão organizados que para bem aproveitar as moléculas de celulose, criam no aparelho digestivo ( de forma comensal) alguns protozoários e bactérias na promoção da digestão. Trata-se de uma perfeita simbiose na natureza.
- Na vida social e política, continuava nosso doutor dos insetos, eles dão exemplos para os humanos. Primeiro porque o regime é monárquico, sempre feminino, com uma rainha, de mandato vitalício. Ao que muitas vezes retorquia Chico Naves em tom de pilhéria –Eh, eh, mas são parasitas e predadores, porque corroem plantas, pisos, tetos e tudo quanto de madeiras encontram pela frente. Silvestre dava sempre aquela risadinha, mas com um cenho de reprovação da piadinha do amigo.
Nosso criminalista, quando instado a falar dos bastidores de sua atuação não se amuava com qualquer curiosidade.
- Meus clientes, repetia Chico Naves, são personalidades de elevada aptidão e alto tino administrativo. São até, não todos, sem uma escolaridade de grau superior. O que não os desqualifica como pessoas de  elevado QI e destacada competência para a gestação( ou gestão ) das coisas públicas e privadas.
E então rebatia em forma de chiste o amigo Silvestre- São competentes e habilidosos mas, roubam e corroem o dinheiro de merenda escolar, o sangue de transfusões e o erário público.
Dr. Chimango Naves se queixava das injustiças e desigualdade das penas impostas em seus clientes ao professor e amigo entomologista.
Silvestre, quando falava de suas formigas e cupins tinha uma sensação diversa do colega criminalista. Dizia ele: -  meus insetos podem até corroer e dilapidar algum armário, alguma cumeeira ou utensílios de madeira, mas o fazem indistintamente, sejam bens públicos ou privados, de nobres ou plebeus , de ricos ou pobres.
No recôndito dos pensamentos de Chico ( o criminalista) e de Silvestre ( o entomologista dos cupins), havia uma sensação mútua e consensual. A matéria, objeto de trabalho de ambos tinha uma denominador comum. Cupim e corrupção corroem bens públicos e privados e são eternos.
Desde que o mundo foi criado, o diabo também criou o cupim e a corrupção. O combate a um e outro busca um estado de enfraquecimento, repressão e equilíbrio, mas aniquilamento e anulação completa, nunca!                       Fev./2016 

João Joaquim - médico - articulista DM 

EDUCAÇÃO E CIDADANIA

A SOCIEDADE, O ESTADO  E AS FAMÍLIAS NA CRIAÇÃO DE DEFORMADOS DE CARÁTER
João Joaquim 


Muito se tem discutido nos últimos anos sobre as relações humanas, sobre as relações dos citadinos, das pessoas com  outras da mesma categoria, com instituições públicas ou privadas e com o Estado (organização político-administração de um povo). Não se esquecendo também uma criação (não exclusiva do Brasil), a que se chama de cidadão. Como aqui nomeado, o que é   cidadão ?  É aquele indivíduo,   no gozo ou usufruto de direitos civis e políticos. Isto falando de Brasil .  Deveria ser uma constante    também, para esse dito cidadão,  a consciência de obediência às normas e leis dessa nação de que ele ,cidadão (ã) faz parte . O que se constata , entretanto, ser esse comportamento não uma regra.
Quando se fala em cidadão, lembra-me a cidade de Roma, na época de seu esplendor, antes da ruína do império Romano. O termo cidadão foi criado no auge da instituição política daquele povo. Receber o título de cidadão romano era uma credencial honorifica de alta distinção . Era um passaporte de trânsito para o mundo.
 Quanta decadência e depreciação nessa categoria de pessoas. Repita-se em termos de Brasil.  Para a Constituição  e Legislação brasileira (código civil) cidadão(ã) é todo aquele  que porta um RG, título de eleitor e CPF, nada mais é exigido. Até presidiário (de cadeias), com tornozeleira eletrônica ou domiciliar são considerados cidadãos. Antes do trânsito em julgado, eles têm direito a tudo; até votar e escolher nossos representantes do poder executivo e legislativo. São fatos e verdades exclusivas do Brasil; igual a Jabuticaba, mensalão e petrolão. Só vingam em nossas terras.
 Não muito diferente se tornaram as relações do indivíduo. E  aqui começamos pelas  crianças e jovens no ambiente das famílias e com toda forma de instituições pedagógicas. Escolas de maneira exemplar. A escola era uma etapa tão importante na formação do indivíduo que o sonho de muitas famílias era deixar o adolescente no colégio em regime de internato. Deveria estar com a mesma importância nos dias desta crônica.   Alguns internatos  se notabilizaram nessa tão nobre missão pedagógica que foram objeto de filmes e livros. Cito um como exemplo, o Ateneu de Raul Pompéia. Penso eu que o primeiro grupo social e instituição determinante, preponderante e capital na constituição , na  formação , na  conduta e no caráter da pessoa humana seja a família. Com algumas exceções, nós somos o corolário, o produto, a arte final de nossa família. Cada um é uma extensão da educação recebida dos pais.  Isto, bem entendido, em todos os atributos que iremos levar para sempre em nossas vidas. Dos mais simples gestos e atitudes como educação alimentar, higiene, disciplina e organização com nossos pertences e objetos pessoais e domésticos, até com nossos sentimentos de afeto, generosidade, honestidade e senso de civilidade com as pessoas, com as instituições públicas ou privadas e com o meio ambiente.
O segundo grupo social com o qual o ser humano estabelece um vínculo de grande significado se chama escola. Tal contato e convivência ganha relevo e influência não só na formação de conhecimentos técnico-científicos, mas no perfil e qualificação civil (de civilidade), moral e ética do indivíduo, nomeado pela constituição como cidadão.
Pergunta-se - ao que assistimos hoje, na era da internet e das tecnologias massivas da informática?  Todos assistimos ao também maciço apodrecimento dos valores cívicos  e formação moral e ética  de nossas crianças e jovens.   Obrigações e exigências estas, não dos estabelecimentos de ensino; mas de forma criteriosa, severa e continuada das famílias. Todos andam distraídos pelos apelos e engodos da modernidade, do consumismo, aos prazeres fúteis e frívolos da vida.
As relações pais/filhos nestes tempos de tanta tecnologia têm se resvalado para a absoluta tolerância, leniência e ausência de qualquer limite. Sejam esses limites nas atitudes as mais comezinhas no ambiente doméstico, no tratamento com os membros parentais , com os idosos,  nos espaços públicos ou privados.
O Brasil chegou a um descalabro tão aviltante nas relações humanas que se criou por exemplo o instituto da prisão domiciliar e da tornozeleira eletrônica. Além das instâncias judiciais( 1a , 2a, 3a..) , até prescrição dos crimes ou indulto de natal. Na deseducação das crianças e jovens o Estado (legislativo) também deu a sua contribuição. Foram criados a estatuto da criança e adolescente (ECA) e a lei da palmada. Através dessas leis, as crianças e jovens podem denunciar os pais por algum corretivo infracional. Se era para esculhambar, o ECA ,  a Lei da Palmada e Grupos de Direitos Humanos deram essa contribuição , vieram para piorar o que estava ruim. Conseguiram. Menores de 18 anos não são presos, mas apreendidos. Não vão para penitenciarias , mas para as “Casas”, escolas de crime. Alunos “reprovados” não podem repetir a mesma séria. Passam de ano sem saber nada. Filhos rebeldes e birrentos não podem receber nenhum corretivo , palmadas ou castigos. Os pais podem ser processados. Estes são os cidadãos que estamos criando  para o mundo futuro.  
Enfim, pelo cheiro da brilhantina, pela leniência e omissão das famílias, pela distração crescente dos pais; especialmente aqueles entretidos juntos aos filhos em seus smartphones, em suas redes sociais; por tudo isso e também  corroborado pelo  Estado ,estamos cada vez mais criando monstrinhos e deformados de caráter e de cidadania (cidadania, termo em moda e criado pelo próprio estado e grupos de Direitos Humanos) em nossa sociedade. O mundo futuro que vamos deixar, igual ou pior o de agora, vai depender dos filhos melhores ou piores que vamos deixar para esse mundo.        fev/2016  
   

João Joaquim - médico - articulista DM