sábado, 29 de abril de 2017

GÊMEOS DIGITAIS

 XIFOPAGIA DIGITAL
João Joaquim  
  A palavra é xifopagia, e xifopagia digital a expressão de poucos conhecida. Antes disso.  Tem palavras que por si mesmas já não diz boas coisas e bons ensinamentos. Quer outras? Concupiscência, nem é bom citar na íntegra os seus significados. Delação. Esta encontra-se em moda. Fosse dilação, vá lá, mas delação arrepia só de pronunciar. Agora se tem uma injustiça semântica neste Brasil, ela se refere por exemplo à palavra propina. De uma módica e propícia gorjeta ao garçom virou sinônimo de corrupção e das grandes. Xifopagia digital em síntese é a simbiose estreita e contínua ou ligação doentia que se estabelece entre o dono e objeto  de mídia, em geral um celular ou smartphone.
Xifopagia e xifópagos. E aqui comento sobre a sua transição de signos e significados. O radical xifo vem do grego xíphos, na raiz tem o significado de espada. Por isso na anatomia humana temos o apêndice xifoide. É aquela cartilagem no final do osso esterno, localizada na parte anterior do tórax, aquela região popularmente chamada “boca do estomago”. Como refere o adjetivo xifoide, é um detalhe anatômico que lembra uma espada.
Eu me referi que o termo é feio por si só e não traz bons significados. Xifópago, primitivamente, na concepção mitológica referia-se a um monstro de dois corpos que eram ligados na altura do tórax (no apêndice xifoide). Xifódimo é outro nome que se dá a essa monstruosidade.
Na medicina temos essa malformação do feto, que gera os tão conhecidos gêmeos xifópagos. Na verdade eles podem nascer unidos ou colados um ao outro por outros segmentos corporais como abdome ou bacia pélvica. São malformações cuja correção cirúrgica de separação traz graves riscos de morte ou mutilações e sequelas. Enfim, são anomalias da embriogênese humana que traz muito sofrimento aos seus portadores e à família, e não há uma causa identificada, nem como evitar tal possibilidade em qualquer gestação.
Um outro nome que ainda se dá a essas crianças é gêmeos siameses. Isto porque os xifópagos mais famosos da história da medicina foram os irmãos Chang e Eng Bunker, nascidos na Tailândia (antigo Sião) em 1811 e mortos em 1874. Tiveram uma extraordinária longevidade, 63 anos, em face do prognóstico ruim que traz a síndrome. Eles não se submeteram a cirurgia de reparação pelos riscos que tal procedimento representava.  
Enfim, eu discorri com platitudes, com algumas anfractuosidades e abobrinhas para chegar numa forma atual de xifopagia. Como temos um grande rebanho de humanos, que se não viajou ao mundo da lua, vive ao menos imerso e disperso no mundo virtual com todos os seus insumos e apetrechos digitais, ficou fácil nominar tal gemelaridade (ligação genética e afetiva entre gêmeos). Temos então na era digital a tal da xifopagia digital, ou simplesmente gêmeos digitais. E eu a descrevo sem mais delongas. A grande diferença aqui é a ligação que se dá entre um humano e um objeto eletrônico, uma mídia digital, mais costumeiramente, um aparelho de telefonia celular, ou smartphone ou tablet.
Xifopagia digital é mais um daqueles corolários e fenômenos que veio ao mundo através da invenção da internet, das redes sociais e de todos os artigos da informática.
Hoje, na maioria dos países se tem mais celulares e smartphones do que habitantes. Não importa se são nações de primeiro mundo ou atrasados, social, cultural e economicamente com o Brasil.
A aqui nominada xifopagia digital já vem sendo estudada com outros nomes: webdependência, alienação digital, digitoadicção , entre outros termos. Tanto a psicologia, psiquiatria e as terapias do comportamento vêm se dedicando ao estudo, compreensão e tratamento dessa forma de dependência, que guarda semelhança com a drogadição, os vícios das drogas ilícitas.
Os principais sinais exteriores da xifopagia digital são a posse e porte continuados e incessantes  do parelho celular ou mídia equivalente (smartphone, tablet). É aquele indivíduo que porta seu celular diuturnamente. Seja numa atividade de lazer, na academia de ginástica, durante as refeições, numa cerimônia religiosa, em reuniões corporativas, no avião, na toalete, em terra, no enterro de um parente ou amigo, etc. Na análise psicológica o ciclo decorre do uso, reuso e abuso. Nesse ciclo e moto-contínuo é que se encontra o principal mecanismo da xifopagia digital; enfim no vínculo gemelar pessoa-mídia. Mas, tem prevenção e cura. Basta se conscientizar e aceitar o tratamento. 

SEM RAZÃO

ESTAMOS NUM  PROCESSO DE DESRACIONALIZAÇÃO  
João Joaquim  


Eu dei de começar este artigo por um outro artigo a que eu assisti. Assim expresso inda que  soa impróprio e esdrúxulo, mas, não! Ele foi emblemático e a genuína realidade do vem a ser a sandice, a insanidade e a insensatez que velejam na cabeça de enorme parte da humanidade. Não estou aqui para abobrinhas e platitudes. Simplesmente transunto e traduzo o que meus olhos veem e o que meus ouvidos ouvem das pessoas.
Eu estava de telespectador, atividade que faço com muita moderação e parcimônia. O artigo ou matéria que se veiculava era um programa do governo de Goiás para sorteio de casas populares, a preços subsidiados. Assemelhado ao “minha casa minha vida, do governo federal”. A matéria mostrou como exemplo uma adolescente senhora (cerca de 20 anos de idade) que fora contemplada no sorteio.
As imagens mostravam essa mãe ao lado de um rústico barracão cedido pelo sogro, com uma filha grudada ao corpo (cerca de 3 anos) e grávida do próximo filho (talvez 20 semanas de gestação).
A cena, as imagens que ficaram em minhas retinas foram estas: a menina filha como que assustada e quase nua, abraçada ao tronco da mãe. E esta mãe gestante (20 anos de idade) a espera de um abrigo mais digno para morar, cedido por referido programa social e de amparo do governo de Goiás.
É de direito de quem me lê se mostrar se não em pasmo, no mínimo curioso e talvez me inquirir: ora! O que tem a ver uma mãe tão jovem (20 anos) já à espera do 2º filho, que não tem onde morar e a espera de uma casinha subsidiada pelo Estado (seja o de Goiás, ou da União)?
Vou dar azo a mais um aparte a quem possa interessar. Mais que isso,  explicar que o meu espanto e minha reflexão não estão voltados apenas à figura da mãe e ao cenário de pobreza da referida família que ilustrou a matéria da televisão. Minha análise e preocupação se voltam para aquela criança (3 anos) e o nascituro, seu futuro  irmão.
Eu tomo de empréstimo e símbolos essas duas pequenas criaturas. Porque elas são emblemáticas do que se passa em nosso combalido e desacreditado Brasil, como de resto todas as nações com igual ou piores índices sociais, econômicos e de qualidade de vida; entre eles IDH, indicadores de educação como pisa e desempenho em matemática e idioma pátrio(leitura).
Tomando o caso do Brasil como modelo, temos a cada ano milhões de crianças que são jogadas ao mundo, postas ao léu, à prova de todas as indignidades a que pode suportar uma pessoa na sua fase de crescimento e desenvolvimento.
Uma criança de 3 anos ou 5 anos não tem, mas se déssemos a ela a capacidade crítica, o entendimento mínimo de revolta ou o poder da indignação, o que ela certamente protestaria seriam essas cruas e mordazes verdades e gritos de misericórdia . Oh! pai e mãe, por que vocês me fizeram nascer e me colocaram neste mundo de homens e mulheres tão desumanos. Que mundo, que vida, que terra são essas onde poucas pessoas têm tanto e muitos outros tão pouco ou nada têm?
Retomo então o exemplo da mãe adolescente e suas duas crias. Tal pessoa se mostra um indivíduo que porta um certo nível crítico, um dado discernimento e grau de inteligência; numa análise a distância. Tanto assim que se inscreveu num programa social de casa popular e aguardava ansiosamente pelo sorteio de seu nome. Ou seja, ter um abrigo com um mínimo de dignidade para si, para o marido e filhos. E seu planejamento familiar , controle de natalidade ?
Então vem a pergunta capital para referida pessoa: e o futuro e a dignidade dessas crianças postas no mundo. Como será a assistência na alimentação, na higiene, nos cuidados médicos, e o mais importante e decisivo: como será o processo educacional de longa duração dessas crianças? Assim postas tais simples questões, não parece muito de uma mente acometida de  sandice, de insanidade e insensatez que tomaram conta da humanidade?
É o que me parece! A mãe adolescente aqui retratada é apenas um exemplo das milhões que há pelo Brasil e outros países em franco atraso no que se refere aos atributos de uma pessoa humana. Animal racional, na taxonomia dos cientistas, classificado como superior, inteligente, dotado de discernimento , e portador de alma e de coração. Será  que foram perdidos  esses atributos ? Depois deste caso-modelo , como de resto milhões de outros , estou levantando uma tese de que vimos perdendo a razão e os princípios de sensatez. Março/2017

HUMOR

 SER FELIZ   FLEUMÁTICO OU RAIVOSO E BILIOSO
João Joaquim  


Quando se fala em humor em nossos tempos vem logo à nossa memória aquele sentido que tem o termo de se referir à vocação ou tendência latente em cada um para a alegria, para a graça, para o riso, enfim àquele momento de relaxamento de ansiedade, enfim estar em  serenidade. Tal predisposição da alma e do espírito se tornou até uma arte, uma profissão. No Brasil, temos como exemplos um Tom Cavalcante, um Jô Soares e Chico Anísio (falecido) entre muitos outros humoristas  menos famosos.
Na verdade, trata-se de uma habilidade nata. O indivíduo já nasce engraçado. Um exemplo muito sabido , em âmbito mundial,  foi Charles Chaplin. Ele em si era o humor em pessoa, além de grande dramaturgo e exímio ator.
A origem do que hoje entendemos como humor vem de priscas eras e tinha outro significado. Ainda hoje temos resquícios do que era estudado pela antiga medicina. Vamos então a questões pontuais da história. Hipócrates, considerado o pai ou precursor da medicina propôs a teoria dos quatro humores. Eram eles o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra. Outro pensador e médico que defendia a mesma teoria foi o grego Claudio Galeno, de Pérgamo. Admite-se que a homeopatia criada por Samuel Hahnemann (1755-1843) foi inspirada na teoria dos quatro humores de Hipócrates e Galeno.
De fato há mesmo um certo nexo lógico entre os dois cientistas . Galeno pode ser  Considerado o pioneiro das chamadas formulações magistrais. São aquelas cujos princípios ativos são variáveis, a depender do paciente e profissional que as indica. Diferente da chamada fórmula  oficinal cujos ingredientes são fixos e tem validade mais prolongada.
Eu disse que a medicina atual tem resquícios da medicina hipocrática e galênica. Ao menos em terminologia. Por exemplo, nos olhos temos dois tipos de humor, o aquoso que preenche a câmara anterior do globo ocular e o humor vítreo (translúcido como vidro) que preenche a parte posterior dos olhos antes da retina. São componentes gelatinosos de grande importância na fisiologia da visão.
Outros pensadores e cientistas também defenderam a teoria inicial de Hipócrates e Galeno. Um exemplo que a história registra é a do médico suíço Paracelso (1493-1541). Ele dava muito realce por exemplo à composição e efeito dos minerais no organismo humano. Talvez dele  é que tenha nascido a ideia da chamada “medicina ortomolecular”. Prática não reconhecida pelo conselho federal de Medicina.
A tese central da teoria dos quatro humores de Hipócrates era que a saúde do indivíduo, a chamada homeostase interna dependeria da perfeita concentração e equilíbrio dos quatro humores: sangue, fleuma, bílis negra e bílis amarela.
O sentido das ideias de Hipócrates em sua teoria dos humores remanesce na medicina moderna e na cultura popular, senão vejamos alguns significados.
Do sangue temos os adjetivos  sanguíneo, sanguinário e pletórico. Traz a conotação de um indivíduo avermelhado, mau,  raivoso e colérico. De fleuma temos, fleumático  e diz-se do indivíduo sereno, pacífico, calmo. De bílis, bilioso, angustiado, deprimido. O termo humor negro por exemplo traz esse sentido, amargurado, deprimido, sem nenhuma graça ou encanto.
Por isso e como recomendação de boa saúde é  que eu, o que aqui vos escreve,  continuo fleumático, banhado dos humores da alegria, do riso e de felicidade.
Em termos científicos o que temos hoje? Dos quatro humores de real temos o sangue e a bílis. A cor da bílis é amarela e única. Ela pode se tornar negra, no caso de uma inflamação , de uma infecção o em sangramento de vias biliares. Talvez a fleuma a que se referia Hipócrates seja a linfa, da circulação linfática, de cor esbranquiçada tirante ao leite. Mas, ela nada tem a ver com efeito de alegria e bom humor. Se alterada e represada ela vai causar inchaço, edema e muito desconforto no órgão envolvido. A bílis fora da circulação hepática ( vias biliares) é uma substância altamente irritante e passível de graves complicações no abdome. O sangue quando diluído, com hemoglobina baixa gera  a anemia. Se muito concentrado, contrário da anemia, ele causa um estado pletórico, o indivíduo fica afogueado, vermelho e tem tendência a trombose. Por isso, nessa condição existe a indicação para sangria, que consiste em simplesmente o indivíduo  doar o sangue num banco de sangue e tratar a causa dessa chamada poliglobulia, alta concentração de hemácias e hemoglobina  .   Abril  /2017.  

FÉ ILIMITADA

 NOSSO SENSO E SESTRO  DE ACREDITAR EM TUDO
João Joaquim  



Todos nós temos visto e acompanhado os grandes feitos e fatos pelo Brasil e pelo mundo afora. São os acontecimentos por exemplo do Brexit no reino unido, das trapalhadas e trampadas do presidente ianque Donald Trump, da crise humanitária e política na Venezuela, da sanguinária e fratricida guerra da Síria do carniceiro Bashar Al Saad e de nossa crise ética, econômica e política. Conturbação e crise nunca antes registradas na história do Brasil.
Assim intituladas eu tomo como deixas e motes, os fatos lembrados para trazer à baila uma característica da mente e percepção das pessoas, aquela de se acreditar de forma definitiva ou prontamente em tudo que se é narrado, noticiado e divulgado como verdadeiro.
Todos temos uma tendência em aceitar tudo que nos é apresentado como real e verídico em uma primeira versão. Isto porque somos imediatistas ,  susceptíveis e sugestionáveis pelas funções sensoriais e nosso senso crítico.
Acreditar de pronto no que nos é proposto e contado em uma primeira versão exige pouco ou nada de nossa elaboração mental, de nosso ceticismo e de nosso raciocínio lógico e de nosso cabedal de conhecimento. Ou seja, quanto menos preparado o indivíduo, cultural e profissionalmente, menos crítico ele é , menos exigente também no que vê, ouve e assiste.  São esses os processos que nos levam ao não contradizer, ao não contra atacar com nossas dúvidas e questionamentos.
Nesse processo da imediata aceitação das ocorrências como verdades prontas e acabadas entra também um outro fenômeno; o conforto ou comodismo da não ciência ou conhecimento dos fatos narrados. Como exemplo desses mecanismos vamos citar alguns fatos ocorridos, bem atuais, aqui no Brasil, para dar mais consistência dessa eterna predisposição da sociedade na acreditação espontânea e  fácil das coisas.
A notícia da chamada pílula do câncer, a fosfoetanolamina. Milhares de pessoas, das mais distintas classes sociais, profissionais e culturais, acreditaram naquela substância como o elixir de cura e salvação de milhares de pacientes portadores de câncer. E muitos de fato melhoraram, não pelo uso da pílula, mas pela  força de tratamentos convencionais que já faziam e por reação do próprio organismo e baixa malignidade de seus tipos de câncer.
Várias ações judiciais foram movidas em favor da liberação da substância e até juízes entraram na onda na concessão de liminares pelo direito à aquisição e uso do medicamento. Hoje, já se sabe que a fosfoetanolamina e água morna têm o mesmo efeito anticancerígeno. Ou seja, nenhum.
No campo político, entre tantos outros fatos, temos como amostra grátis a discussão sobre a tão propalada e combatida reforma da previdência. É de majoritário entendimento, no qual este escrevinhador se inclui, de que as propostas se apresentam com muitos pontos e cláusulas desfavoráveis aos trabalhadores. Tanto aqueles servidores públicos como os privados. E agora o governo do presidente Michel Temer quer excluir da reforma os funcionários estaduais e municipais. Todavia, o meu tema e debate aqui fogem aos pontos negativos e construtivos para quem vai se aposentar pelas regras (novas) da previdência social.
A questão central é desta crônica é a acreditação e fé imediata nas casas que nos são narradas e noticiadas ; assim pergunto: quantos ferozes críticos da reforma fazem tais viperinas críticas com o necessário conhecimento e leitura das propostas ali apresentadas?
Em suma e ao término da crônica ficam os tão repetidos e encontradiços fenômenos em acreditar em tudo à primeira vista, nos boatos tidos como verdadeiros, na pura e simples fé em algum relato como algo concreto e  não contraditável. Numa frase, estamos mais do que nunca na era e nos tempos das pós verdades. Isto pode ser muito perigoso e mostras do quanto temos nos tornado frágeis de crítica, de intelecto e de conhecimento do mundo. Ou eu estou exagerando ? Abril/2017

IMPOSTORA

A IMPOSTORA


João Joaquim

Giocarla Lunane foi concebida para ser como outra normal qualquer. O destino no entanto teve mil e quinhentas e três  maneiras de a torná-la uma criatura de algumas faces. Era lisa em seus meneios, dissimulada em seus olhares, seguia a vida com seus dois lados. Um direito, outro sinistro ou  canhestro conforme se lhe apresentassem os ensejos e desejos de viver sua vida de sibarita e de tantas vaidades. Vanitas vanitatum et omnia vanitas,  
Ela acalentava um sonho. Ser um dia rica, mais do que já era abastada e viver uma vida de quase rainha do lar, já que a realeza de  outros tronos era uma chance de utopia. Outros sonhos eram recônditos , entre os quais um marido que lhe pudesse ser protetor e provedor de muitos desejos de consumo.  Se anelos mais altaneiros se esvaiam com o passar da idade o jeito de tocar a vida  e encantos físicos foram o bastante para se arrumar num bom casamento, e assim se fez. Assim se faz com muitas pessoas contempladas pela fortuna. Ser como Gioconda, ter um quê de mistério , arauta de puro luxo, mirar nas joias de dedos e correntes no colo e punhos.  
Ser como Gioconda a evolar um quê de mistério e enigmática. Personificação da vaidade cujo senso inicial esplendesse um ar de honestidade e honradez. Essa era a pose e tática, quase sempre estática de    Giocarla lunane   .
Não que fosse má pessoa. O que a sempre a caracterizou foi um ar de empáfia e soberba. Seus diálogos eram sempre aureolados com meneios de esnobismo, de um riso entre desdenhoso e sardônico a depender da matéria em tratativa, do ambiente em torno de si  ou do interlocutor.
O marido  , Lucacus     Ancinado, poder-se-ia ser nominado pau mandado, vez que era um fâmulo de luxo daquela consorte, que calculou ser sua cara-metade ideal . Mais que dedutível, o que corria no vulgo da vizinhança e em rodas íntimas é que o casamento se dera por interesses não de almas, ou seja, sem a mínima chispa de cupido, mas com motivos cobiçosos  de ordem material e outros arranjos sociais, inda que revestidos de andrajos morais.  
  Lucacus     onça, como também era conhecido o marido,  casara já na madureza da idade, 40 anos, talvez 42.    Giocarla    um pouco menos, 38 anos. Ela era legatária do pai. Uma herança que investira em alguns lotes e um apezinho (apartamento) de aluguel como referia sua parentela. Nunca tivera emprego fixo ou de carteira assinada. Vivia de alguns bicos ,  pequenos artesanatos,  e rendimentos dos bens recebidos.
  Lucacus     onça, tinha ares de intelectivo, vestia com afetação, tinha atração por perfumes franceses e roupas bem estampadas e coloridas; calçava 38, embora com biótipo rotúndico  . Gostava de boas comidas, tinha hábito  glabatário, caseiro e sedentário. Não era dado a libações etílicas , mas se deliciava com bebidas gasosas, coloridas e aromáticas. 
Onça, como também lhe referiam alguns íntimos, tinha um hábito algo reprovável entre muitos amigos, hábito deveras desqualificante aos ganhadores da vida como  usurários e capitalistas.   Lucacus     era tomador de empréstimos monetários, mas era conhecido mau pagador de suas dívidas. Suas principais
vítimas eram parentes, irmãos, tias,  até o próprio pai; idoso com proventos do INSS, de nossa brasílica  e em fase falimentar, nossa  Previdência social.
-  Maninha, eu tava precisando um dinheiro para dar andamento a uns compromissos. Você me empresta, a gente acerta os juros, com um ano eu quito a dívida. Se precisar tenho crédito na Caixa( entenda-se Caixa Econômica Federal ).
-  Tá bem onça. Será pra já.  - Pra manhã, pode ser por um doc ou ted?
-  Não , maninha. A coisa vai ser assim. Quero o empréstimo em ovelhas.
-Como assim, não entendi?
-De sua fazenda Pomerânica de  MG, de seu rebanho de ovinos. Você me repassa 100 ovelhas para meu usufruto. Num sistema de comodato, ou quase isto. Dessas 100 cabeças , eu tiro trinta matrizes, e destas eu lhe reservo e garanto uma cria  por mês.
-  Tá combinado mano. Então fica fechado o pagamento em 12 meses.
As transações com Lucacus Onça eram sempre temerárias. Pagar o prometido era até cumprido, mas nunca no prazo avençado. A liquidação, por nisso falar, era avançada a perder de dias, se não , em alguns casos lá para as calendas brasileiras.     
Giocarla    Lunane  tocava sua vida no estilo semelhante ao do mandado marido. Sem vínculos empregatícios, sem preocupação com o amanhã. E assim seguia o seu fadário. Não aceitava nenhum alvitre em seu “modus vivendi”. Sempre grã-fina no trajar, moral alta e  nariz arrebitado. De  fala altissonante, respostas tonitruantes quando desafiada em suas ideias. Não ser contrariada das ideias era sua marca.
Deu-se a  passagem de aniversário de    Giocarla    . A comemoração natalícia  se dava na bela casa do casal Ancinado( Lunane/ Onça). Presentes à festa, alguns parentes próximos e amigos de família.  
Santifa, a maninha do empréstimo se fazia presente. Finda a festa, restavam poucos convivas dos laços parentais. Esses poucos convidados ainda bebericavam em relaxadas conversas.
-  Mano, eu queria aproveitar para um particular entre nós dois.
-  Vamos aqui para o quintal maninha. O que se passa?
-  Onça, lembra do nosso empréstimo. São passados 6 anos ou 72 meses. Será que ....?
-  Sabe maninha, eu ainda tô meio apertado. Tenho, como sabe a maninha,  esta casa, um terreno, um carro, alguns trocados no banco. São coisas que sobra um bom troco . Fique tranquila que eu lhe pago.
- Mas, e os negócios, as terra da    Giocarla lunane    ? Pergunta Santifa.
-  Não, ela ficou até de vender um lote e me quitar os débitos. Mas, você sabe né!..Ela tem os pavios curtos e espoleta de cartucheira. Tenho que esperar um momento de fraqueza ou algum dengo e tocar no empréstimo . 
-Mano, eu sei. Só que relembro que você conhece o cunhado que tem e ele é do tal sistemático. Por questão marital eu devo satisfação a ele, até pelo regime nas cláusulas esponsalícias.  Falou em questão de promessa e empréstimo de dinheiro o homem fica amolado e enfunado comigo. Dá um jeito de arrumar sua vida e não me enrolar além dos limites, que aliás já passaram de 6 anos.
Assim tocava a vida o casal Onça e    Giocarla    para manter a pose e posse do status social. Muitas eram as pedaladas monetárias e cambiais; tudo à maneira de outros personagens de nossa política. Até quando se daria tal  comportamento e atitudes? Por todos os séculos de séculos. Amém. Assim viverão e morrer-se-ão  as figuras esnobes, de desfaçatez e fanfarronas  do Sr Onça e    Giocarla lunane   , ou  Ser como Gioconda, arauta de desejos mútuos  cujo enigma ninguém decifra.  Abril/2017.

FELIZ E DIGITAL

HIPERCONECTIVIDADE , VIDA BOA E REALIZAÇÃO PESSOAL 

João Joaquim  


O que é uma boa  vida? O que é felicidade? O que é satisfação ou realização pessoal? Se dermos essas três perguntas  para cem pessoas, penso que haverá mais dissenso do que coincidências de respostas, dado que os sentimentos, os desejos, os anseios são muito subjetivos e portanto divergentes entre os seres humanos, quanto a esses estados tão almejados e buscados por todos.
Nessa sumária digressão pretendo fazer algumas reflexões sobre essas três condições tão intrínsecas e tão peculiares aos humanos ,nesses tempos da hiperconectividade.
Inicialmente vamos, a título comparativo, pegar dois jovens de mesma idade( 25 anos por exemplo), mas vivendo em épocas diferentes, um na década de 1980, outro na década de 2010; e que estes dois indivíduos tenham características socioeconômicos semelhantes.
O que poderia ser a vida para esse jovem de 1980? Talvez estar matriculado numa boa faculdade, talvez ter um emprego estável. E para o jovem de 2010? É possível que os desejos coincidissem. Uma boa faculdade ou quem sabe estar bem empregado. Mas, não seria surpresa se esse jovem da era da internet considerasse a vida como sendo estar bem conectado com a virtualidade através das melhores mídias (iPhone, smartphone), participar das baladas com sua tribo e talvez isto lhe bastasse para estar numa “boa vida”.
O que seriam a felicidade, a realização pessoal para esses dois jovens de épocas diferentes? Muito provavelmente a felicidade e realização para eles coincidissem com os seus projetos pessoais de vida.
 Mas, o por quê dessas reflexões sobre essas condições ? Vida, felicidade, realização pessoal? Vamos a uma análise de nossos tempos. Estamos numa época a que podemos denominar de  a era da internet, da virtualidade, da globalização e massificação das comunicações . A esse estágio do sociedade mundial vamos dar o nome de hiperconectividade. O que vem a ser a hiperconectividade? Trata-se do estado coletivo, no qual todos ”necessitam” estar conectáveis e/ou conectados  de forma fácil e instantânea ao outro.
Como isto se dá? Através de um ou mais recursos ou mídias de comunicação (telefone móvel, smartphone, iPhone,  iPad etc). Na prática esta dinâmica de conectividade se dá pelo uso de celular, onde se fala ao vivo com o interlocutor, ou redes sociais via computador ou uma mídia tipo smartphone ou iPad( redes sociais tipo facebook, mensagens sms, whatsApp) etc.
O que se tem de certo é que todos, quase sem exceção, se encontram num permanente estado de ansiedade pela não ruptura de se manter “on-line” e alcançáveis pelos denominados contatos ou “amigos”. Tal condição é o que se denomina, quando em grau extremo de Neurose Digital, também referida como webdependência. Tal distúrbio já vem sendo objeto de estudo pela Psicologia e Psiquiatria com tratamento psicoterápico e medicamentoso; a exemplo de uma dependência (adicção) química como cocaína ou maconha .
O que tem a ver o estado de ansiedade, ou a neurose digital com a condição de vida, a felicidade e realização pessoal de cada indivíduo? O que se tem de concreto é que esses estados( vida, felicidade, realização) mudaram de forma proporcional ao  progresso e aos  avanços tecnológicos e científicos em nossos tempos(modernidade).
Muitos de nossos jovens continuam tendo a vida boa , realizada e feliz  como o acesso a uma boa faculdade, a um emprego estável e mesmo a um trabalho autônomo e empreendedor. O que a hiperconectividade tem gerado é um estado paralelo de empecilho ou desvio do objetivo das pessoas (mais os jovens) a esses projetos de vida, felicidade e realização pessoal.
A obsessão ou compulsão pela  permanente conexão ao mundo da internet se tornou condição  de parasitismo ou de competição nociva ao estado de atenção , cuidado e dedicação do indivíduo às suas outras atividades; sejam estas na vida escolar, nas atividades produtivas, e mesmo em sua vida de ralações afetivas com o cônjuge, familiares e amigos no contato físico face-a-face.  
Para uma parcela, não menos significativa de pessoas, a vida, a felicidade e realização não vão além de estar perenemente plugadas na internet, em suas mídias e redes sociais.
Para essas pessoas, para as quais a vida, o bem estar e zona de conforto se resumem à hiperconectividade 24 horas por dia, deixamos as seguintes perguntas( auto-dirigidas) como um balanço de conquistas pessoais. Ao final de cada mês, de cada ano civil, de um quinquênio que seja: o que as minhas mídias; no caso o meu smartphone, o meu facebook,  o meu whatsApp agregaram de melhora para mim como pessoa, como profissional, no meu “curriculum vitae”? Enfim, que crescimento ou ascensão socioprofissional eu construí com a minha hiperconectividade ?  Seriam ótimas perguntas para início de cada mês e ano!        Abril / 2017.

PÓS-VERDADE

PRÉ-MENTIRAS E PÓS-VERDADES

João Joaquim  

Umberto Eco(1932-2016):   escritor e filósofo italiano , afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".
Diversos jornais e críticas elegeram a palavra de 2016 como sendo a pós-verdade (“pós-truth”). Em 2015, não foi  uma palavra, mas uma carinha de emoji , uma figurinha que ri tanto até chorar. Tem ideias e criações que só mesmo vindas do Japão( criação deles, as tais emojis) e propagadas pelos  americanos para lançá-las. O próprio Donald Trump parece ser uma pós-verdade( uma genuína criação ianque ).
Mas, afinal de contas o que é mesmo pós-verdade. Vamos ao conceito. O primeiro pós-verdadeiro que conheci era alemão e trabalhou como ministro de propaganda do nazismo de Hitler. Josef Goebbels era seu marqueteiro. Foi dele a frase de que se uma mentira é espalhada 100 vezes, ela se torna verdade. Essa é uma chave de definição do que é a pós-verdade. Em outros termos é todo boato, fofoca, imagem ou ideia tola que ganha mais credibilidade e seguidores do que um fato real e antagônico a essa divulgação fantasiosa e falsa. Depois da chamada delação do fim do mundo, dos executivos do Odebrecht, temos certeza de abrigar muito mais pós verdadeiros políticos do que sonhava nossa filosofia.
Temos três pós-verdades que circularam pelo mundo recentemente e que ganharam adeptos e fieis. A primeira, a narrativa de que o Brexit acarretaria 470 milhões de dólares em prejuízo para a Grã-Bretanha por semana. A segunda narrativa foi que o papa Francisco apoiava a eleição de Donald Trump. Por último dizia-se que Barack Obama era o real e legítimo criador de estado Islâmico.
O jornal “the economist” afirmou uma coisa que o Brasil inteiro já está careca de saber: de que políticos sempre mentem. Só que lá o Trump ultrapassou os nossos limites de pós verdades.
Pelo  que constatamos, as novas mídias como facebook, twitter e whasApp são os grandes propagadores de boatos, fofocas e factoides. Enfim são molas propulsoras de pós-verdades.
Aqui no Brasil temos mais do que nunca presenciado outros fenômenos quando o assunto é a criação de palavras e pós-verdades.
Estamos a nos referir à pré-mentira. Funciona mais ou menos assim, mais para mais : muitas de nossas excrescências da política (não confundir com excelências) são flagradas com a boca na botija; ou melhor, expressando e verbalizando uma verdade. Ou seja uma verdade em segredo porque de natureza criminosa. Tipo “a parte que me toca será de 10%;  minha conta na Suíça aguarda o seu depósito de 10 milhões”, etc e tal. Advirto, são afirmações corretas.
Ou então aquele papo de que “temos que interromper a sangria da lava-jato, limitar a atuação da polícia federal, a suruba não pode ser seletiva”. Entre outros palavreados do submundo do crime politico. Tal qual o submundo putrefato do PCC , são Paulo, comando vermelho, Rio de Janeiro.
Ora! vindo à público tais diálogos, áudios e vídeos, de pronto o falante tem sempre uma nova versão, uma nova definição daquele vocabulário. É como se eles criassem um novo glossário para seus diálogos. Um verbete muito buscado tem sido o contexto. O corrupto não tem como negar porque têm imagens e áudios, mas flagrado  na esparrela, o embusteiro e larápio tem logo uma explicação: não, não, tal afirmação foi dita em outro contexto. “ Aqueles 800 mil dólares de minha conta na Suíça não são meus. Não foram depositados por mim.”
Enfim, se a era Trump criou as chamadas pós-verdades, nossos políticos e empreiteiros corruptos criaram as chamadas pré- mentiras, que antecedem as  pós-verdades. Já somos exportadores de muitas frutas exóticas, agora temos mais essas jabuticabas , que só vingam , florescem e amadurecem aqui no Brasil . Abril /2017.