domingo, 31 de maio de 2015

DIÁLOGO DO CÉREBRO-ESTÔMAGO DE OBESO

DIALÉTICA NEURO-BARIÁTRICA
João Joaquim


 A história começa em domicílio e foi mais ou menos assim:  o sujeito acessório do enredo, tinha revertido sua cirurgia para obesidade, ele estava em casa e acabado de acordar de sua sesta. De particular ele se deleitava de seu peso mórbido. Deleitava-se?  Como assim? Poderia protestar algum endocrinologista. E já de súbito eu rechaço
- Deleite puro. Nós, magros ou macérrimos, é que padecemos de nossa magreza. Gordo além de não sofrer com fadiga e  suor  de malhação passa a vida na alegria e nos prazeres de comer sem restrição. Pensando nesse lado prazeroso e cheio de desejos não vou chamar nosso personagem de doentio ou mórbido, mas de obeso cúpido, aquele prenhe de fome e compulsões para as mais apetitosas comidas.
Assim pensando pensaria o nosso agente: não me venham com alface, tomate, pepino, rúculas e grãos integrais. Nesses pratos eu estou fora. Meu negócio é macarrão, lasanha, calabresa, fritas, carnes da boa e coca de um litro para cima.
 – Meu prato tem que ter sustança e muita massa para me manter no maior vigor e robustez. Esses pratos de muitas folhas, raízes e rabanetes é pra gente que busca flacidez.
Nosso obeso cúpido também chamado repimpão ,   já passadas duas horas do farto almoço sentiu então uma estranha corrente dialética que nascida da barriga e ia dar-se no cérebro.
O cérebro então ordena   para todo o aparelho  digestivo - você está todo se esvaziando, procure uma coisa de mastigar, na geladeira é o ponto mais próximo. Lá é que se guardam aqueles doces, tortas e outros acepipes.
O sujeito com o  estômago aos roncos   vai e abre a geladeira.  –Hum!  pouco o que de comer. Vai este copo de leite - glute, glute.
 –Tenho que fazer compras, vou ao supermercado. No hall do super o sujeito da cúpida obesidade pega o carrinho de compras e começa as vias do prazer
 -Carnes! Esta não, não, ela é muito branca e pouco suculenta. Esta outra serve. Está vermelhinha e saborosa. Vai dar aquela combinação com muito molho e batata frita. Vão  doces, chocolates e muito queijo.
-Macarrão! Onde ficam as massas? Tão ali. Três pacotes. Que deliciosa macarronada! Faltam as pizzas. Estão do lado das massas. Umas seis tamanho gigante.
–Hum!   tô sentindo a boca salivar. É fome.  Onde fica a padaria? Tá logo aqui depois das cocas.
- E assim já aproveito e coloco uns refrigerantes.
 – Hum! Com uma pizza a três queijos e bacon, que delícia!
Na padaria o sujeito completa as compras. São mozarela , pães de queijo, presunto, pão mandi, torta de chocolate e roscas carameladas.
-Vou pra fila do caixa, pensa nosso persona acessório.  Qual está mais vazia? –Esta, ali, são dois na minha frente.
A fila está indo bem, os dois consumidores à frente têm poucas compras, uns quinze itens em cada compra.
Cérebro ordena ao estômago . – Você está vazio, coma alguma coisa!
-Hum que fome. O sujeito não se vexa e não hesita. Ele saca em meio à carga uma coca 600 ml e glute, glute, glute. Todos os circunstantes tem olhares críticos e curiosos.
Cérebro para estômago:  -Isto não basta, eu preciso de mais substância! O sujeito saca o embrulho da padaria. - Vai este, um pão mandi com recheio de presunto e mortadela. Na fila mesmo do caixa do supermercado o sujeito atende aos cúpidos apelos do cérebro e estômago e devora sofrega e famelicamente aquela coca, seguida de abocanhadas naquele sanduiche improvisado.
 Nosso sujeito ex-bariátrico e repimpão está impaciente. Ele paga a conta das compras no caixa com cartão de crédito.  O cérebro já está a combinar com estômago ; -   no carro nós completamos este pré-lanche com mais coca e pão à mortadela. E assim nosso cúpido obeso seguiu com as compras já de olho gordo na próxima refeição.     mario/2015


João Joaquim - médico - articulista DM -joaomedicina.ufg@gmail.com - www.jjoaquim.blogspot.com  

MEDICINA...E...

AVANÇOS E DESAFIOS DA MEDICINA
 João Joaquim


Eu costumo falar para muitos amigos e pacientes que a Medicina hoje encontra-se num estágio de desenvolvimento que dá para escolher por exemplo do que se quer morrer. Ou ficaria melhor a afirmação do que não se quer morrer. Se passar desta para a outra já não é agradável, tem umas formas muito mais sofríveis .  Os avanços conquistados nas Ciências de saúde nos últimos 50 anos é muito maior do que os conhecimentos  nos dois  mil anos anteriores. Não é pouca coisa . Vamos pontuar aqui alguns exemplos. A tuberculose pulmonar há 60 anos atrás tinha a mesma mortalidade da AIDS de hoje. Os primeiros antibióticos eficazes  contra o bacilo de Koch(tuberculose)  surgiram em fins de 1940/50. As doenças virais como varíola e sarampo dizimavam milhões de pessoas porque não havia vacinas. A varíola hoje nem existe mais, foi extinta. A poliomielite (paralisia infantil)em breve deverá ser abolida  da terra graças à eficácia das campanhas vacinais. As vacinas e os soros de imunização são uma das grandes conquistas da Medicina.
É evidente que a Medicina ainda enfrenta muitos desafios com os quais vem estabelecendo um combate inelutável. Como exemplos a AIDS, a malária em regiões endêmicas como a Amazônia e no continente Africano e a dengue que vem assolando o país inteiro.
A malária . Trata-se de um doença conhecida de milênios . Ela mostra-se explicável  a dificuldade em sua eliminação porque há  em sua gênese e perpetuação um mosquito vetor e transmissor, o anófele, que procria em águas de clima tropical. Caso por exemplo do norte do Brasil e África.
No que concerne à dengue eu já disse em outro artigo e repito que ela é fruto da precariedade ou falta de higiene das pessoas. Seja aqui no Brasil ou alhures. Ela resulta maciçamente  de falta de higiene pessoal e privada (particular). Bastaria que cada pessoa, cada família, cada empresa privada ou pública dessem uma destinação correta aos lixos produzidos e não haveria criadouros do mosquito aedes aegypti. Não tendo o vetor e  doentes para contaminá-lo ter-se-ia a extinção da doença, que vem molestando, tumultuando os já precários hospitais e postos de saúde  do SUS e matando centenas de pessoas. Trata-se de uma calamidade pública , mas com muita culpa  de gente sujismunda e porca com o lixo que se produz. Eu nunca vi falar de dengue na Suécia ou Cingapura. Lá não se joga um palito ou bituca de cigarro na rua. Aqui se joga tudo em vias públicas, até vergonha e honradez são jogadas fora . As pessoas perdem-nas e não acham mais . Que triste!
Se tem outra doença 100% evitável com método simples e eficaz , a camisinha de Vênus, se chama AIDS. Além de grátis pelo SUS, quando custa muito, não passa de R$ 1,00 o preço de um bom preservativo. A contaminação pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) é hoje mais uma daquelas idiotices que acomete o gênero humano. Numa transa ou relação sexual, na dúvida sobre o estado sorológico do parceiro(a),  é inconcebível que o indivíduo não use preservativo.  Se o sujeito não conhece (laboratorialmente ) o estado clínico do(a) parceiro(a) como se expõe a essa atitude de falta de higiene de um sexo de alto risco? Tal prática se mostra inconcebível para nós humanos que somos racionais e inteligentes .
É oportuno lembrar que nessa tragédia da pandemia do HIV e AIDS está subjacente outra tragédia de igual monta e impacto na saúde global, o consumo crescente das drogas lícitas e ilícitas. Entre as drogas lícitas temos desde as bebidas alcoólicas até aquelas compradas com receita médica ou no mercado clandestino. É o caso dos já populares lexotan, rivotril, citalopram, sertralina, sibutramina e outros tantos vendidos por aí . São substâncias de uso generalizado, sem critérios médicos no seu emprego e que se adquirem facilmente com a prescrição conivente de um médico bonzinho e amigo, ou nem precisa dessa ajudazinha porque se acha em muitas farmácias que vendem sem receita, ou mesmo se compra pela internet ou no camelódromo de cada esquina. Um deboche e escárnio das policias e das autoridades sanitárias .  Mas , com as leis complacentes que temos não se poderia esperar outra coisa. Somos campeões em automedicação e consumo de remédios sem receita médica.
Portanto, esse tem sido o principal mecanismo ou fórmula de perpetuação de tantas trágicas epidemias;  de muitas doenças contagiosas facilmente preveníveis. No rol dessas evitáveis doenças que causam milhares de morte no mundo inteiro temos as hepatites virais, a AIDS, o câncer de colo de útero pelo HPV e muitas outras bem conhecidas pela Medicina. Todas contraídas por falta de higiene e atitudes simples de biossegurança como sexo seguro, uso de água e sabão na lavagem de alimentos e mãos , preservativos etc.
No âmbito das doenças degenerativas e oncológicas(câncer) temos vários exemplos bem conhecidos e estudados pela Medicina para as quais o melhor remédio está na sua prevenção. Para fecho desta resenha vamos pinçar alguns tipos bem sabidos até pelas pessoas comuns e leigas em Medicina ( basta perguntar ao dr Google ) .
O câncer de pulmão em 95% dos casos tem como causa o tabagismo, seja ele ativo ou passivo. A nicotina é a principal causa de tumores de boca, vias aéreas superiores e sistema gênitourinário. O álcool é a principal causa de cirrose hepática, doença esta  mais maligna do que muitos tipos de câncer. Na área cardiovascular, as principais causas de infarto e derrames cerebrais são o fumo, a hipertensão arterial, o colesterol alto e o diabetes.
E por fim, cada vez mais existe uma clara associação entre ingestão excessiva de alimentos e sedentarismo com doenças metabólicas e degenerativas de alto impacto na qualidade e expectativa de vida das pessoas. Existe um clichê popular ,mas não menos verdadeiro que diz; comida tanto engorda quanto mata. Ou este outro: o peixe morre pela boca. Eu acrescento:  nós temos um cérebro muito  evoluído e morremos pela boca tanto quanto os peixes . Para isso as boas e apetitosas iscas estão sempre ali, nas gôndolas dos supermercados para nos fisgar como as carnes vermelhas contaminadas de hormônios e nitrosaminas( cancerígenas) , os queijos gordurosos, as massas, os doces, os refrigerantes, as cervejas , os frangos criados com anabolizantes etc .
Portanto, fica aqui esta sentença como conselho: a chamada Medicina baseada em evidências (científicas) tem plenas condições de mostrar a cada pessoa as chances ou riscos do que ela pode morrer ou deixar de fazê-lo se adotar as medidas profiláticas; medidas esta que são  simples e baratas ao alcance de todos. Por falar nisso eu vou continuar fazendo minhas caminhadas diárias e comendo o suficiente para viver. De preferência viver  bem e com saúde.  maio/2105


  João Joaquim médico 

MORTE DAS ARTES PLÁSTICAS

A MORTE DAS ARTES PLÁSTICAS

João Joaquim


 Hoje deu-me no coco (desculpe-me a gíria) de falar sobre criação. Aliás, conforme defendia o filósofo e teólogo Huberto Rhodden, este termo deveria ser grafado creação e não criação. Segundo ele, criação deveria ser aplicada à geração e produção de animais. Criação de boi, de cavalos, de mosquitos da dengue, de corruptos no  meio politico  etc. Creação, vem do latim “creatione”. Trata-se daquela habilidade ou dom na produção de qualquer arte no sentido concreto e abstrato .
Sabe-se que eu não sou dotado de confissões íntimas. Mas, esta eu vou expressá-la. Trata-se da inveja. Não aquela inveja vil, mesquinha, da felicidade ou posses e bens  do outro. Eu exalto aqui aquela inveja saudável e construtiva de se ter o mesmo ou semelhante talento desse ou aquele artista. Eu nem vou buscar exemplos tão longínquos como um Shakespeare ou Oscar Wilde. Quando eu leio por exemplos livros e crônicas do Bariani Ortêncio,  de Miguel Jorge ou Antenor Nascentes. Como que as palavras saem da pena desses notáveis escribas de forma tão fácil. Quando não são poesias puras se tornam textos  prosopoéticos, tal a beleza na concatenação das palavras. Desse talento nato e cultivado  eu tenho uma enorme inveja.
Quando lemos com interesse e silêncio um texto de Shakespeare ou uma poesia de Walt Whitman. Aqueles artistas quando fizeram aquelas creações só podiam estar atacados de algumas coisas sobrenaturais. E estas coisas sobrenaturais só poderiam ser chispas ou centelhas divinas. Segundo convicções de grandes pensadores a creação artística na acepção de beleza, harmonia e encantamento tem uma contribuição da mão de Deus. Vamos a um exemplo bem aqui do nosso Brasil, as obras barrocas de Aleijadinho( Antonio Francisco Lisboa). Quando contemplamos as esculturas disse admirável artista temos a sensação de que elas são cópias fieis dos personagens que representam, como os Profetas, o anjo Gabriel etc.
Esses personagem em escultura  só faltam falar. Então imagina se isto não nos convence de um toque paralelo da mão do criador divino. Pensar que esse genial artista chegou a essa proeza em artes plásticas ou sacras, numa época de poucos recursos técnicos e material e tendo muitas limitações físicas por uma doença que na época não tinha cura, a hanseníase. Como se sabe essa doença( antiga lepra ou morfeia) deixava sequelas mutilantes, porque à época não tinha tratamento, não existia antibióticos. O indivíduo ia perdendo os dedos das mãos . Além do que havia uma grande discriminação contra os  seus portadores, era muito estigmatizante.
 Uma face interessante quando falamos em arte é lembrar daquela dualidade desde a creação do universo, do embate bem versus mal .  Dizem as lendas que o demônio sempre tentou imitar as creações de Deus. E pensando bem, essas teses nos convencem, porque tem gente que está muito mais para uma criatura demoníaca do que de Deus. Imagina por exemplo um Hitler do nazifascismo, um Pol Pot do  khmer vervelho-Camboja, um Bin Laden da Al Qaeda , um terrorista do Isis . Não parecem criaturas de Deus. Tem todos a face do mal.
 No princípio era tudo um caos, uma escuridão, veio a luz. Deus fez a virtude, o diabo o vício. Fez-se o belo, surgiu o feio. Enfim se trava a eterna luta entre o bem e o mal. Entre a beleza e a feiúra.  Esse conflito só se resolverá no juízo final através do Armagedon conforme refere o apocalipse 16:14-16.
Referem as lendas culturais e religiosas que Lúcifer, o anjo decaído ou demônio, sempre tentou imitar a Deus em suas obras da natureza e da humanidade. Na área do esporte por exemplo. Os jogos olímpicos de atletismo, de corridas e tantos outros de demonstração de habilidade e inteligência seriam de inspiração divina. E então eis que o diabo tomado de inveja resolveu exibir a sua arte. Assim surgiram as chamadas artes marciais (vem de marte deus da guerra ou do fogo). Dentre essas temos hoje, em moda, o MMA e as modalidades de boxe (pugilismo). Pensando bem não pode mesmo ser uma creação de Deus. Dois brigões entram num octógono e trocam socos e sopapos. O tempo todo se esmurrando . É sempre hematomas e  ferimentos para todo lado. As consequências são muito  graves, lesões neurológicas, demência precoce, mal de Parkinson ou doença de Alzheimer, quando não há  coma aguda e morte. Ou seja são obras muito mais diabólicas do que divinas.
Torno ao tema central que é creação ou arte no sentido de beleza, harmonia e estética. Eu confesso que ando cético e pessimista com muitas formas de expressões artísticas com o surgimento da internet. Eu penso que dificilmente surgirão outros Di Cavalcantis, Portinaris, Picasso e Salvadores Dali. Eles estão condenados à extinção, se continuar a tendência de abolir o uso do papel e da caneta. O livro se tornou e-book, caderno, notebook, caneta será trocada por toques digitais no ipad ou tablet.
As crianças antes de irem para a escola já estão recebendo e aprendendo a manusear os coloridos e mágicos instrumentos virtuais. Tudo prontinho e atrativo ao simples toque dos dedinhos. Os pequenos estão sendo adestrados a não pensarem. E para quê. Dá trabalho. A internet já traz tudo pensado e criado, ainda que quase tudo fútil e deseducativo.  As gerações virtuais, crianças e adolescentes de hoje, já estão tendo alguns  distúrbios graves em leitura e na escrita. Em neurologia e psicologia é o que se chama agrafismo ou disgrafismo, e dislexia. Ou seja dificuldade na arte de escrita e de se expressar.
Nas artes plásticas por exemplo onde a pessoa cria elementos visuais e táteis, com linhas e cores, sensação de profundidade e percepção tridimensional. Como se constrói uma obra de arte desta natureza? Na base de tinta, de uma tela, de um cinzel, de um pincel. Enfim pintando e escrevendo. Pergunta simples e capital:  como que a criança vai manifestar tais habilidades inatas e vocação natural  na tela de um Ipad ou tablet?  Impossível. E eu estou encabulado.  Será que os artistas plásticos estão condenados à extinção ?  Pode ser a morte das artes plásticas,  quão triste essa tendência !

maio/2015

O QUE HÁ DE VELHO ?


João Joaquim


 É muito comum e repetitivo nós encontramos alguém e lhe tascar a pergunta: o que já de novo? Pois hoje, me deu na telha de fazer a pergunta do contrário. O que há de velho? Ninguém pode esquecer o passado. O passado já foi presente e até futuro. Tudo é questão de tempo. O tempo é o determinante do velho e do novo.  Olha o tempo aí! Um conceito que parece não ter conceito. Se pegarmos 10 pessoas eruditas nos mais diferentes ramos do saber e pedir-lhes um conceito de tempo, cada uma certamente terá uma opinião diversa das outras. Será puramente subjetivo. Einstein por exemplo definiu assim:” O tempo foi uma maneira que Deus encontrou para que as coisas não ocorressem de uma só vez”. Definição axiomática, bela , mas subjetiva.
Assim parece também ocorrer com passado, presente e futuro. Com o novo e o velho idem. Deixando a digressão filosófica, à parte, vamos ao que há de mais prático e compreensível em termos de novo e de velho. Todos somos ávidos e curiosos pelo novo, pelo inaudito, pelo que ainda não aconteceu, mas que  pode ser uma novidade  a qualquer momento. Nós, humanos, temos a tendência de trocar o usado pelo novo, o tradicional pelo moderno, o antigo pelo atual. Assim pensando e agindo será que temos razão?
 Quando pensamos em tecnologias, em utensílios, em instrumentos de trabalho, produção e entretenimento tem-se como plenamente válido tal expediente. Se tenho um tear e surge uma máquina com maior produtividade na fiação da lã não tem como não trocá-lo por essa nova tecnologia, essa nova descoberta. Nos exemplos aqui citados fica fácil a nossa compreensão nessa tendência humana, desejosa e apressada pelo que há de novo.
Vamos a algumas questões no campo abstrato. Em termos de aquisição de conhecimento. Olhemos atentamente como nossos antepassados buscavam se aprofundar nas Ciências em todos os ramos do saber. O homem (gênero) na busca em deslindar os fenômenos científicos e metafísicos tinha um vínculo mais forte e íntimo com a natureza. Ele era um ser mais pensante, mais centrado em desvendar as suas dúvidas sobre todos os fenômenos à sua volta. As pessoas da era da informática e da internet andam tão fascinadas e embriagadas pelo mundo virtual que nem pensam mais como antes. O mundo virtual traz tudo acabado, tudo prontinho. É tudo muito lindo, multicolorido, com design para todos os gostos. Com um detalhe: tudo fútil, raso, superficial e de gosto duvidoso. Na Internet não se tem controle de qualidade e precisão de nada. Todo mundo fala e escreve as abobrinhas e futilidades a bel prazer.
Para dar mais consistência e foro real a essas premissas do velho método em se apossar de mais conhecimento basta pontuarmos alguns exemplos da História. Remontemos aos conhecimentos da matemática e geometria pelos gregos(Euclides, Pitágoras). Passados mais de 2000 anos o que foi acrescentado àqueles velhos teoremas e fórmulas ? Quase nada! Na sistematização da Filosofia pelos pensadores da mesma época? Pouca coisa foi adicionada. Em astronomia de um Copérnico e Galileu Galilei. O que de revolucionário foi alcançado depois desses cientistas?

Voltando ao nosso mundão de hoje e para o nosso Brasil. O que temos de velho? Neste terreno das velhas práticas temos levas e levas de condutas e hábitos que não mudaram em nada quando olhamos para trás. Uma delas, a Política. Todos hão de lembrar de quando éramos colônia de Portugal. Época em que se fazia a partilha das terras entre os donatários e nobres do reino. Eu fico a olhar  o Brasil de hoje, quando o presidente(a) se elege com o apoio de partidos amigos e depois divide o país entre ministérios. Parece que de novo estamos sendo colonizados pelos donatários da nação e do PT. Tudo como dantes no quartel de  Abrantes. Só de cargos comissionados são mais de 25.000. São os apaniguados e apadrinhados(donatários ) do(a) presidente. A bola da vez é a presidente Dilma Rousseff e seus protegidos de esquerda.  Esses funcionários sem concurso se parecem com as vassalos , ligados aos senhores feudais. Como a História se repete, tudo velho. 
E os jeitinhos desonestos e ladravazes de governar? Igualzinho aos velhos hábitos do Brasil imperial e dos tempos dos coronéis. A corrupção, o tal do fisiologismo, do toma lá dá cá, do compadrio. Nada mudou. Tudo vetusto como antes .
Para sair da política eu cito exemplos da cultura e preconceito da sociedade. Dia desses eu refletia sobre a rejeição das pessoas, felizmente uma minoria, contra as campanhas de vacinação antigripe. Há uma parcela menor da sociedade que além de não tomar a vacina faz campanha difamatória contra a eficácia dessa prevenção. Então eu me lembrei da revolta da vacina, aquela ocorrida no Rio de Janeiro em 1904, contra a vacinação da varíola  . O sanitarista Osvaldo Cruz era o diretor geral de Saúde Pública na época .  Ou seja, até em termos de ignorância e preconceito temos mais do mesmo e do antigo como esta odiosa velhice de antes e de sempre . Eu acho que estou ficando meio velho , sem perceber .  Que triste! Não?  maio/ 2015



João Joaquim - médico - articulista DM - joaomedicina.ufg@gmail.com -www.jjoaquim.blogspot.com 

CHARLATÕES DIPLOMADOS

CHARLATÕES DIPLOMADOS, CUIDADO COM ELES 
 João Joaquim


 Eu penso que no Brasil charlatanismo é parecido com assalto em termos de frequência. Quase todo mundo já foi vítima dessa prática. Eu sou uma dessas vítimas. Já fui enganado  por dentista falso e por farmacêutico que se passava por médico. Esses dois tipos de fraudadores são muito frequentes na sociedade. Existem muitos outros que exploram a fé , a boa-fé e credulidade das pessoas. Nas TVs temos desde pastores e bispos que vendem indulgências, curam doentes de câncer , fazem  terapias do amor, até garantia de um lugar no paraíso .   Mas, afinal de contas o que é charlatanismo? Numa definição genérica pode-se conceituá-lo como o exercício de uma atividade para a qual o suposto profissional não tem qualificação para tal. A venda de um produto ou procedimento sem comprovada eficácia . Todavia, tal prática também se dá por profissionais diplomados e atuam  na área da saúde. Médico, dentista, psicólogo, terapeutas etc.
O termo charlatão  deriva de ciarlare (falar, conversar, parlar). Um verbete equivalente seria parlapatão. Seria aquele indivíduo de boa comunicação, bom orador, de lábia afiada, e portanto usaria dessas habilidades para ludibriar e enganar os desavisados e facilmente sugestionados por uma boa e convincente conversa( sofisma). A semelhança com muitos políticos não é mera coincidência. No mundo atual se sabe que mesmo aquele profissional diplomado e especializado pode se dar  à prática do charlatanismo. E temos exemplos em profusão na área de saúde. Os médicos principalmente. Como isto se dá de forma objetiva? Todo profissional que prescreve uma terapia ou procedimento sem bases científicas, ele está praticando o charlatanismo. Imagine você , caro leitor(a) ir a um médico . Ele mal ouve ou examina o doente e  pede  uma lista de 30 ou 40 exames . Isto já é um indicio de charlatanismo. O bom médico é aquele que usa de todos os seus sentidos( olhos, ouvidos, tato, olfato) e das mãos para se chegar a um correto diagnóstico. Alguns exames fazem parte como complemento nessa boa relação .
 Numa concepção moderna temos hoje a chamada Medicina baseada em evidências. Significa que todo medicamento, método diagnóstico, procedimentos clínicos ou cirúrgicos só podem ser oferecidos às pessoas depois de rigorosos ensaios clínicos chancelados por comitês de ética médica e aprovados pelo Conselho Federal de Medicina.
Qualquer conduta médica fora desses critérios significa no mínimo prática duvidosa, eficácia não comprovada e atitude de risco para o paciente. Ou seja, um expediente de charlatão. Se não ilegal, porque no caso  de um profissional com título de doutor, é altamente desumana e sem princípios bioéticos.
Vale lembrar que dentro de nosso ordenamento jurídico charlatanismo é crime. Para o código penal o charlatão é um fraudador ou estelionatário, não importa qual atividade ilegal e antiética que ele exerça. Médico, odontólogo, psicólogo, terapeutas em geral, advogado, etc.
O caso mais recente de um profissional diplomado  cassado por charlatanismo ocorreu em maio de 2014 no Paraná. A ex  psicóloga Marisa Lobo. Ela propunha a chamada cura gay. Houve na época um projeto de lei(PL) do deputado João Campos PSDB-GO, no sentido de se tratar o homossexualismo. Tal PL muito polêmico e criticado na época acabou sendo engavetado e fora de pauta na câmara dos deputados. Uma proposta no mínimo inoportuna, infeliz e de mau gosto.  Outro caso rumoroso e emblemático de um charlatão diplomado foi do ex médico e pseudocirurgião plástico Marcelo Caron. Ele atuava em Goiânia-GO. Foram várias vítimas mutiladas, mortes e processos na Justiça.
 O charlatanismo no Brasil é uma prática muito frequente e recorrente. Basta relembrar algumas particularidades de nosso país. Temos uma legislação arcaica, leniente e tolerante com tal tipo de crime. O charlatão mais perigoso e de risco para a sociedade é aquele que tem diploma de doutor. As atividades com maior incidência dessa prática são as profissões de saúde. O charlatão diplomado se torna um agente muito nocivo em sua prática porque ele tem a proteção e disfarce da profissão que exerce de forma legal(embora antiética e negligente) com registro no conselho de sua classe profissional. Nesse cenário o médico tem sido um personagem de relevo.
 É oportuno lembrar que em nosso país qualquer médico pode exercer qualquer especialidade, sem titulo de especialista .  Não há lei ou portaria dos Conselhos de Medicina que vede o médico de exercer a especialidade que bem lhe aprouver. Pode parecer um fato esdrúxulo e disforme, mas este é o Brasil no qual vivemos. Uma outra cultura muito perversa que também caminha paralela com o charlatanismo é o alto consumo  de medicamentos e a  automedicação. Somos campeões em vendas de remédios .
As propagandas e os apelos às atividades charlatanescas e de curandeirismos estão em cada esquina. Tudo é muito ostensivo. Para tanto, basta abrir as revistas e jornais e lá estão os anúncios desses profissionais que prometem inúmeras terapias e cura para tudo; desde impotência sexual até do câncer . Nas rádios e televisões, tudo se dá, às escancaras. Nenhum conselho de categoria profissional (Medicina, Odontologia, Psicologia, Fisioterapia etc) ou vigilância sanitária  se preocupam em ao menos verificar o estado sanitário ou instalações desses serviços. Quando muito existe alguma fiscalização ou inquérito diante de  uma denúncia ou boletim de ocorrência de lesão corporal ou morte. Aí os conselhos da profissão abrem inquérito e fiscalizam. No mais tudo continua como dantes , nos  quartéis  de Abrantes .
Por tudo isto e tanto escracho tinham razão o general de Gaulle e Nelson Rodrigues. O primeiro cravou que o Brasil não é um país sério, já o segundo bem descreveu o nosso complexo de vira-latas. O charlatanismo nosso de cada dia é mais uma mostra de que esses dois personagens tinham razão em suas afirmações premonitórias. Além do vira-latas, cultivamos muitos outros complexos. O de um país sem solução, do jeitinho brasileiro desonesto de se levar vantagem em tudo, o da dengue, o da corrupção , o da aceitação de tudo de forma passiva. Até na área de drogas temos outros. O complexo vitamínico comprado livremente nas farmácias de cada esquina, o complexo de antidepressivos receitados pelos médicos e usados  a vida inteira, o complexo de inferioridade etc.  Que triste.     Maio/2015 



João Joaquim - médico - articulista DM - joaomedicina.ufg@gmail.com -www.jjoaquim.blogspot.com

O LEITOR E O CRONISTA

João Joaquim


 Dizem que ser poeta é ser fingidor. Ele muita vez finge tão bem que dissimula até a dor. E não é fácil porque tem dor que não dá para disfarçar. Cólica renal por exemplo, que eu já experimentei umas três vezes, vai doer assim lá na consciência ou na Cochinchina . Em outras dores dá para se enganar bem. Por exemplo para as dores da alma e do coração. Mas, falar em fingimento, não é só o poeta que é um bom fingidor. Os escritores também sabem encenar, falsear, dissimular, fingir e se fazer passar por outrem. E cá entre nós, qualquer pessoa comum é um pouco poeta e um pouco escritora. A vida em si é poesia pura, uma arte literária. O que ocorre com muitas pessoas é um processo de acomodação. A maioria esmagadora tem igual talento e aptidão para ser poeta e escritor. Basta o exercício desses pendores inatos.
É bem verdade que em qualquer expressão artística há pessoas mais seletivas, com um talento congênito. O indivíduo, às vezes, já nasce com habilidades naturais. Juntando a essa inteligência intrínseca o interesse e o exercício artístico ele se tornará um gênio. Certamente foram os casos de um William Shakespeare, de um Machado de Assis, de um Olavo Bilac, de Drummond de Andrade etc.
Desses luminares e avatares da literatura e da poesia eu tenho uma santa e incentivadora inveja. Só de reler as obras dessas  portentosas figuras a gente parece haurir um pouco de sua capacidade criadora ou creadora como queriam os escritores latinos. O pouco de cultura que tenho e uma modesta facilidade de escrever, as tenho em função de uma acirrada e contínua atração pela leitura. No meu caso é uma demonstração de como o treinamento e esforço podem compensar a falta de talento. Se eu me propusesse a ser um profissional escritor seria um pangaré de escritor ou charlatão. Ainda bem que exerço a vocação maior que é ser médico. Gostaria muito de ser médico de homens e de almas, como o foi o evangelista São Lucas( vide  "Médico de homens e de almas", de autoria da escritora Taylor Caldwell). Mas, me realizo muito no meu mister de aliviar, tapear e curar algumas dores físicas e do coração. Coração, claro, no sentido somático e psicossomático.
Eu torno-me àqueles idéias iniciais do poeta ou escritor ser um bom fingidor ou dissimulador. Aqui entramos no campo da ficção. Vale para todas as artes. Um pintor ao conceber uma bela tela muita vez ele expressa uma cena puramente ilusória, impossível de se reproduzir na prática. Uma composição musical de um Chopin ou Mozart. Puramente imaginativo e ficcionais as sensações que nos transmite. Mas, tudo válido pela beleza do talento e criação artística.
Volto ao meu pequeno mundo pessoal como cronista. Uma característica de cada autor deve ser também a vaidade. Todos têm o seu grau de presunção. Se tem um fator que massageia o ego e atiça ainda mais o talento de qualquer artista são os elogios e o reconhecimento de seu trabalho. No meu dia a dia sinto muito reconfortado e bem gratificado quando algum leitor ou leitora refere ter lido esse ou aquele artigo com críticas construtivas. Às vezes também expressando protestos e discordância de algumas afirmações ou idéias. São todas bem acolhidas, porque a liberdade de imprensa e de expressão é uma de nossas conquistas .
O certo é que todas essas interações que fazemos com o leitor representam estímulo e corretivos para fazer o melhor ao nosso alcance em termos de idéias, opiniões, dados sociais, ciências e saúde. Mantenho uma característica: que é dar resposta a todos os contatos a mim dirigidos.
Para concluir e como símbolo do dito pelo escrito, reproduzo as elogiosas considerações que me fez um leitor quando caminhava no bucólico  Bosque dos Buritis. Foi quando o simpático e risonho caminhante, Eudes Luiz de Carvalho, me deteve de forma muito cortês e me inquiriu: o Sr. escreve no Diário da Manhã( O jornal mais lido de Goiânia) às  5º feiras e domingos? Agradeci-o de forma penhorada por essa gentileza e prestigio;  e aqui reitero de forma sincera  o orgulho de tê-lo no rol de meus leitores  e pelas suas palavras. Expressões que  reproduzo uma como amostra grátis . O Eudes Luiz me disse ser contumaz leitor de tudo. E mais, que tudo quanto lhe apresenta como útil nos jornais como saúde e outras matérias, ele recorta e arquiva. Inclusive as minhas crônicas. Vejam meus caros leitores(as) se isto não representa a melhor paga para um modesto escriba como este que vos fala.    Maio/2015 



João Joaquim - médico - articulista DM - joaomedicina.ufg@gmail.com -www.jjoaquim.blogspot.com