POBRE METIDO A RICO E BONA-CHIRA
Quando se trata do sentimento (negativo) da soberba, há uma divisão quanto ao seu portador (a). Existe o soberbo pobre e o soberbo rico. Ambos se identificam com esta sensação e expressão de mais valia e superioridade. Ao menos na ótica de seu ego e bojo moral. Entretanto, cada um deles tem uma fruição diversa. O soberbo rico, abastado, endinheirado faz de seus recursos e ativos monetários, um escudo para suas relações sociais e sua sensação (falsa) de supremacia, de superior, de melhor do que os que o cercam. Há quem afirme que ele pode bancar e ostentar sua soberba porque demonstra poder aquisitivo material e pecuniário para sua soberba. E o soberbo pobre, pobretão, improdutivo, de poucas posses? Um soberbo fracassado, humilhado por vezes porque não pode bancar sua vaidade, seu melindre narcísico e egoísta. Por isto se diz que arrogante pobre e muita vez golpista é o pior pobre; além de pobre arrogante!
Então? Nesta digressão falemos sobre a soberba. Também intitulada orgulho, arrogância, como termos mais populares. Mas, ao longo do texto surgirão outros sinônimos. É oportuno lembrar que nenhuma palavra tem outra igual, de mesmo sentido. Sinônimo são termos muito parecidos, quase iguais, mas não iguais. Imagine aqueles dois gêmeos idênticos, univitelinos. Se chamá-los iguais é impróprio. Porque haverá sempre diferenças. Assim, são as palavras sinônimas. Então falemos da soberba. No popular também dita salto alto, alto coturno, sobranceria, empáfia. Etc.
Mas, o que vem a ser a soberba estudada pelos ramos científicos como Psicologia Social, Psicologia Positiva, pela Filosofia? Atentemos bem que qualquer pessoa leguelhé ou lé com lé cré com cré, sabe o que seja soberba. O indivíduo ali da arraia-miúda, pode não definir com palavras. Mas, sabe diferenciar o indivíduo soberbo do sujeito polido, educado. O que é então esse antipático e abominável sentimento que uma pessoa tem em relação à outra? Ou nem de tanto precisa? É a sensação de ser melhor. Sempre melhor do que a pessoa mais próxima. Pode-se excetuar o seu portador de não demonstrar esse negativo sentimento pela amizade, pelo parentesco. Mas, o sujeito soberbo está sempre ali com aquela empáfia, jactado, cheio de si. A sua empáfia está no seu amago, no íntimo, pronta a se manifestar.
Em geral falar das características de pessoa soberba é mais fácil que o próprio negativo sentimento. Em geral há famílias de pessoas soberbas. O sentimento irracional e raso vem daquela educação de pais soberbos. Mãe soberba e pai soberbo, o filho segue o mesmo diapasão. Soberbo! Aqui já se fala das causas da soberba. Se prestarmos atenção aos ensinamentos de Aristóteles e Kierkegaard nem de tanto Psicologia carece. Como tudo na vida, aprende-se com a mãe e pai; seja para o bem ou para o mal. Os dois pensadores citados falaram indiretamente da soberba. Ela se compara a um tambor sem conteúdo. Porque se esse tambor soa porque está vazio.
A exemplo da Ética, a soberba muita vez, resulta do processo educacional imprimido ao filho (a). Criança de pais soberbos tem grande risco de na vida adulta se tornar soberba. Analisado isentamente, esse adulto soberbo, foi assim instruído e mal-educado, por uma mãe e pai soberbos. Há como que aquela atmosfera, onde o filho (a) foi formado. A família/pais como primeira e determinante escola na formação do caráter, para o bem social e ético ou mal desse filho. São leis infalíveis, deterministas!
Tanto o soberbo rico quanto o soberbo pobre compartilham sentimentos comuns (negativos e antissociais). São expressivas as demonstrações de supremacia, de discriminação e preconceito étnico racial, de condição socioeconômica em relação a uma empregada doméstica, ao um trabalhador de serviços gerais, de portaria, de faxina. Etc. O soberbo, o arrogante e impostor rico, diferencia-se do arrogante pobre e de menos valia. Porque o rico pode fazer frente a muitos de seus caprichos antissociais e de se por em condição e grau sempre superior aos demais à sua volta, notadamente as pessoas mais simples e a desafeiçoados. Já o soberbo pobre costuma ser humilhado e vexado.
E o indivíduo soberbo pobre (homem ou mulher)? Essa pessoa guarda identidade com o soberbo rico e de boas posses materiais e monetárias. Entretanto, para aquela pobretona. Ou nem tanto, porque por vezes nada produz, mas, vive em um ambiente de certo conforto, da família, do cônjuge por exemplo. E volta-se a essa diferença. O sujeito arrogante e pobre, é de se ver que para fruir, gozar de melhor padrão de vida, ter um carro, uma moto, uma vivenda com melhores trastes, mobiliário e baixela, etc. Para esses gozos e conforto se vale de financeiras, de gente que o dê guarida com recursos e empréstimos nunca pagos, golpes em órgãos públicos e privados, em desfrutar até de bona-chira às expensas de alguém sempre ingênuo ali na sua retaguarda e arrimo familiar. Nas palavras de Sigmund Freud (1856-1939) e Donald Winnicott (1896-1971), tipos sociais sevandijas e finórios, feitos por genitores de mesma iguala. Arre. Vade retro!
João Dhoria Vijle - Crítico Social e Escritor