EU TE AMO

 

O quanto são hipócritas certas expressões que nos falam de amor. Afeto e amor. Eis aqui a temática dessa amorosa digressão. Quantas vezes alguém já ouviu a expressão: “eu te amo”! E basta que o senhor da razão ande mais, o tempo, para desvendar aquela mentira na boca dessa pessoa que nos fez essa confissão de forma falsa e dissimulada. E não venha quem um dia proferiu essa mentira se justificar, com aquele princípio de que existem verdades temporárias.  O ideal na vida seria que a pessoa amasse uma vez só e eternamente. Mas, é compreensível, porque a convivência dá-nos a oportunidade de conhecer melhor a quem nos devotamos amor. Conhecer integralmente o outro é impossível. O tempo só nos permite revelar um pouco mais o quanto a pessoa porta de vícios e virtudes. O desejável é que cada um tenha mais virtudes que vícios e defeitos.

Mas, afinal como se pode definir o amor? Tarefa fácil, porque ele comporta um sem-número de conceitos, e todos sem preconceito. Porque ao termo ele acaba resvalando para o mesmo desiderato, a união, o elo, o link, o amálgama, a liga, o convênio e mútuo apego de uma pessoa a outra. Quando se ama de verdade, e não de forma temporária, fica a certeza que aquelas duas pessoas são como gêmeos siameses ligados por um só coração e duas almas igualmente gêmeas. Olha o quanto de beleza, ternura, segurança, vida e gratuidade nesse convívio.

Existem, e isto é a mais legitima verdade, diferentes nuances ou naturezas de amor. De modo objetivo, pode-se dividir o amor em dois grandes grupos para fácil entendimento. O amor material e o amor pessoal.

 É natural que tenhamos “amor” a bens e objetos, um patrimônio, um apetrecho pessoal moderno ou retrógrado, o resultado de um trabalho artesanal ou artístico. Nestes termos o melhor exemplo são o amor às joias, a uma roupa preferida, a um par de botas antigas, a um anel, a um cordão de ouro ou prata, a uma bijuteria, a um relógio, a uma bicicleta, a um carro. Ah, como existem pessoas com esse amor. Às vezes, maior que o amor devotado a um cônjuge, a um filho.

Falemos agora do amor pessoal, do amor que uma pessoa devota à outra. De novo, dois grandes grupos para melhor clareza e aceitação. Existem nas ditas relações “amorosas” das pessoas, o amor falso e o Amor Verdadeiro. Entram então nos ditos amores falsos a useira e vezeira expressão “eu te amo”. Atentem bem os leitores (as) que muitos são os ditos apaixonados e namorados (genéricos e de marcas) que prolatam, ditam, ou como se diz no popular, falam pelos cotovelos a useira expressão “eu te amo”. Entretanto, se levado a uma psicanálise, esse locutor, com sua retórica e declaração não passa de um falsário, de um dissimulado e fogo-fátuo do falso amor. Quer exemplos contundentes e convincentes desses tais? Os assediadores morais e sexuais de seus cônjuges (homens ou mulheres), os feminicidas. Como se deu o embrião dessa agressão? A confissão falsa do “eu te amo”, que depois, passa da fase da cama, leva ao desencanto, ódio, intolerância, crime de tentava de execução e de fato, eliminação do outro; feminicídio.

Nas relações humanas, pode-se ainda discorrer sobre o amor paternal ou maternal, em grande parte prevalece o amor verdadeiro. Daí ser veraz, real, a expressão eu te amo. Nessa declaração fica bem nítida a autenticidade na mímica, nos gestos, no cuidado, nas atitudes e zelo com que um pai ou mãe trata as suas crias, os filhos e filhas. Entretanto, existem relações de pai/filho e filho/pai, que elas se fazem por estrita obrigação genética, uma forma de coerção moral pode reger essa relação.  Pode não se ver ostensivamente agressão, mas não há também amor. Apenas respeito. E não raro, onde deveria existir amor, casos existem de ódio e rancor entre esses parentais.  Expressos e confessos.  Basta o modelo dos pais que dão pensão alimentícia a filhos por coerção judicial.

Por último duas ou mais palavras sobre duas formas de relação filial ou vice-versa. Tanto pode ser o afeto (a afetação) de pai para filho ou filho para pai ou mãe. Do filho para o pai/mãe: quantos são os filhos e filhas que amam os seus pais de forma espontânea, originária, generosa, com gratidão pelo simples reconhecimento e retorno do vínculo genético? Amor verdadeiro, independentemente da condição sociocultural, patrimonial e profissional ou moral desse genitor (a). Trata-se aqui da mais legítima verdade real, porque demonstrada por estudos e ensaios de Psicologia Familiar e Sociologia.  

Entretanto, tomemos esse provérbio: “um pai está para 10 filhos, mas 10 filhos não estão para um pai”. Está aqui a entrar no estudo do quanto muitos filhos cuidam do pai, não por amor. Porque o próprio adjetivo o qualifica, um falso amor. Não existe amor, e sim um “cuidado moral coercitivo”. Ora, é bem explícito, useiro e vezeiro esse tipo de relação filial, de filho para pai. Tem-se lá aquela mãe ou pai, que na senilidade, na decrepitude, muitos inválidos, doentes crônicos e estritos dependentes de alimentação, higiene, companhia e medicação. Quantos são os filhos e filhas que fazem essas tarefas do zelo, higiene e cuidados por amor puro e sincero? Esparsos e excetos exemplos. Porque a maioria o faz por uma coerção social e obrigação moral. Os olhos e críticas das pessoas, parentes e sociedade para esses tipos éticos e sociais funcionam como câmeras de vigilância, de coerção social.

E ultimando essa digressão sobre algumas formas de amor, que por vezes não é amor, mas uma relação social familiar interesseira dissimulada.  Nelson Rodrigues (1912-1980) cravou esta: O dinheiro compra até amor verdadeiro”. Falou tudo e mais alguma coisa sobre muitas dessas relações falso-amorosas, conjugais ou filiais. Imagine aquele filho ou filha, que resultado de uma educação familiar de teatro mambembe e tipo júpiter recebeu todos os mimos, privilégios e imunidade para a satisfação de todos os desejos objetais e materiais e monetários. Ora, é natural que “eu te amo” ressoará vindo da faringe e se acreditará como verossímil e real.  Mas, é aí que se estabelece esse amor objetal e de pecúnias. Quem se oporá? Como fazem efeitos os brincos, os mimos e dádivas, os i-Phones e smarts de última geração. Criação, educação. O amor é a única resposta sã e satisfatória ao problema da existência humana. Erich Fromm.

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