quinta-feira, 30 de abril de 2015

DENGUE É FALTA DE HIGIENE

João Joaquim

Eu começo esta crônica com um diálogo que tive com um alemão que mora no Brasil há 4 anos. Ele é casado com uma brasileira e fala razoavelmente o português. Como se sabe a Alemanha é o país mais desenvolvido da União Europeia.
Perguntei então para esse imigrante germânico como ele, nesses 4 anos de Brasil, estava se sentindo por aqui. Sua resposta foi positivista. Como me senti desconfiado da resposta como agrado e cortesia insisti para que ele de forma sincera me apontasse dois costumes nossos que lhe trouxeram algum impacto ou constrangimento .  Foi quando então notei firmeza e sinceridade em sua confissão: Duas coisas para esse alemão destoavam da cultura e costume de seu país de origem: higiene e burocracia. Eu pedi então ao nosso entrevistado que fizesse alguns paralelos nesses dois exemplos, como funcionam lá e por aqui. Na abertura de uma empresa por exemplo. No Brasil pode durar até 6 meses a via crucis no registro de uma firma. Na Alemanha com 2 semanas está tudo pronto. No quesito higiene foi citado o destino que as pessoas dão ao lixo que produzem. Lá não se joga sequer um palito ou cotonete na rua, aqui o cidadão na maior caradura é capaz se jogar até em nossa cabeça e em vias públicas  o lixo de cada dia, não importa o tamanho e natureza ecológica desse lixo.
Uma relação que estabeleço aqui é entre higiene e saúde. Aliás, justifico mais, que a palavra guarda relação com a deusa Hygeia, divindade da  saúde. A Higiene pode ser considerada um ramo importante da medicina, voltada para a saúde ambiental. Daí temos os seus cognatos hígido e higidez, integridade física e mental.
Em termos de patologia temos exemplos em profusão de doenças provocadas por ausência de higiene. É o caso das verminoses e tantas outras doenças parasitárias. Através de uma atitude simples as pessoas poderiam evitar um sem-número de doenças infecto-contagiosas, muitas graves e fatais. Eu falo da conduta ou prática de se lavar as mãos com frequencia. Água e sabão ainda são os melhores, os mais simples e poderosos anti-sépticos e antimicrobianos. Quando se tem um ferimento por exemplo, a primeira conduta é lavar a lesão com água e sabão. Isto evita até o ainda temível tétano . Outros exemplos de doenças infecto-contagiosas por absoluta falta de cuidados higiênicos básicos são; a toxoplasmose, hepatite A, neurocistircercose( que causa epilepsia e desmaios) etc. Isto para ficar nessas citações, porque são dezenas de outras doenças que poderiam ser evitadas com um gesto simples e barato, lavagem frequente das mãos, sobretudo antes de tocar em qualquer alimento.
E já para dar termo a esta matéria, simples, mas de utilidade pública em trago à baila uma doença infecto-contagiosa, epidêmica,  e que vem atormentando milhares de brasileiros. Refiro-me à dengue.  O que é a dengue? É uma doença causada por um vírus, transmitida por um mosquito(aedes aegypti), por falta de higiene. Rigorosamente por falta de higiene. Ninguém estando doente com dengue passa dengue para outra pessoa. Eu posso beijar, abraçar, ter um contado íntimo com o paciente que eu não vou me tornar dengoso;  agora o doente passa o vírus para o mosquito que vai picar e passar para outras pessoas.
Alguém mais afoito ou desentendido poderia me questionar. Mas, como se  adquire dengue por questões de higiene? E é só por isso e nada mais. O que é uma não correta destinação do lixo que produzimos senão uma flagrante ausência de higiene?
Ou seja, a trágica e tormentosa epidemia de dengue que sofremos hoje no Brasil é um indicador melancólico de nosso subdesenvolvimento em educação, em cidadania, em disciplina e ordem, mas sobretudo nosso atraso com nossa própria saúde, com nossos lixos e sucatas que produzimos. Nós, os brasileiros, somos vítimas de nosso próprio desleixo, de nossa precária higiene. O mosquito da dengue, somos nós mesmos que  o criamos, o engordamos, dentro ou no entorno de nossas próprias casas. Nessas questões de higiene, o governo tem pouca culpa. Cada pessoa e cada família têm a responsabilidade e a culpa por essa e tantas outras doenças facilmente evitáveis com um padrão normal de higiene. Isto se faz com os cuidados e zelos os mais comezinhos e simples do dia-a-dia. Entrou no banheiro, usou ou não o vaso sanitário lave as mãos . Chegou em casa , antes de cumprimentar as pessoas lave as mãos . Antes de tocar qualquer talher, copo ou xicara laves as mãos . Produziu algum lixo , sobrou algum recipiente descartável ou sucata imprestável dê-lhe um destino correto e não o transforme numa maternidade de doenças. Assim estamos mostrando que somos civilizados , organizados, preventivos e higiênicos . Simples , barato e não dói.    




TRAGÉDIA NO AR....

VOANDO OU DE PERTO TODOS OS PILOTOS PARECEM NORMAIS
 João Joaquim


 O mundo todo vem se perguntando sobre a tragédia com o avião da Germanwings( ligada a Lufthansa)  que se espatifou nos Alpes Franceses em 24/03/15. Foram 150 mortos. Estremece-nos a causa do acidente. Segundo as autoridades que apuram a ocorrência, o copiloto, que se encontrava sozinho na cabine teve um surto suicida, baixou a avião para que este se chocasse nas montanhas geladas dos Alpes. O piloto tinha se ausentado para ir ao banheiro. Que fatalidade, justamente num momento  de um imperativo fisiológico como este imprevisto do comandante titular (urgência gastrointestinal).
 Como medida de segurança contra ação terrorista, essa porta de acesso à cabine de comando das aeronaves abre sob o controle  de uma senha de 4 dígitos. Digita-se o código, tem-se 5 segundos para puxar a porta, abrir  e ela se fechar novamente, ficando não responsiva  por vários segundos. Assim ocorreu nessa fatídica viagem: o piloto estava fora do comando do avião, o copiloto ficou a sós e responsável no controle do voo, quando num surto suicida fez com que houvesse perda de altitude e a aeronave se chocasse nas cordilheiras alpinas  da França.
Tragédia é tragédia e o que se pode tirar dela é alguma conduta ou estratégia para evitar outras de igual natureza ou causa. Eu penso que esta será mais uma para questionamentos, perguntas de como, do porquê  que ela se repetiu. As próprias autoridades aeronáuticas já fizeram uma retrospectiva estatística de outras tragédias aéreas por causa de surtos suicidas de pilotos. O que fazer para evitar a próxima? Há um princípio ou axioma que preconiza: “Quem não conhece bem a história está fadado a repeti-la”. Parece que é o que se passa  com os órgãos e autoridades da aviação civil no presente episódio. Dada a magnitude e crueza desse desastre com o voo da Germanwings nos Alpes Franceses, as agências reguladoras da Alemanha e outros países europeus já tomaram uma primeira medida. De ora avante, todo voo tem que ter na cabine de comando 2 pessoas. Piloto mais copiloto. Supõe-se que necessariamente haverá no mínimo 2 copilotos na tripulação . Desses três comandantes, vez ou outra um deles terá uma imprevisível urgência fisiológica gastrointestinal, como no presente caso. Urgência evacuatória não tem hora para ocorrer. Uma outra saída mais simples e barata seria piloto e copiloto usarem fraldas. Assim, numa premência intestinal faz-se a necessidade  na fralda e ninguém perceberá .
As autoridades da aviação civil europeia estão chamando essa medida preventiva de princípio dos 4 olhos no comando do avião. Seria o cúmulo do azar pensar em dois suicidas  numa tripulação de 5 ou 6 pessoas. Outra questão que trago à baila são as informações que nos chegam  sobre a sanidade mental do copiloto, Andreas Lubitz . Segundo consta, ele padecia de depressão, já tinha expressado ideias suicidas e tinha omitido ou rasgado atestado médico de sua inaptidão para a função. Seu histórico psiquiátrico era de longa data, como o atestam uma ex-namorada e prontuário clínico apreendido em sua residência .
Sabemos que tais doenças  # depressão, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, tendência suicida#  são enfermidades  que geram um grande estigma social, discriminação e muita rejeição ,seja no ambiente familiar ou funcional. Disto resulta casos de omissão pelo paciente ou mesmo familiares.
Sabe-se que no âmbito médico existe o chamado sigilo ou confidencialidade profissional. Aqui no Brasil é assim,  o que expressam os normativos e código de ética médica?  O paciente tem o direito ao sigilo ou resguardo do seu diagnóstico. Nenhuma empresa ou patrão tem o direito de saber o diagnóstico expresso nominalmente ou em  código internacional de doença (CID) do funcionário. Se ela assim o fizer, está cometendo uma infração ética e legal contra aquele empregado. E atenção: tais garantias individuais ao sigilo do seu estado de saúde é quebrado diariamente , por médicos que são co-autores dessas infrações ético-legais, de forma intencional (dolosa) ou por  desconhecimento de decisão já antiga do Conselho Federal de Medicina.
Todavia, nas atividades profissionais de risco, caso por exemplo de motoristas, operadores de máquina pesada, policiais, piloto e mesmo o médicos; deveria haver uma exceção. Numa avaliação pré-admissional( medicina do trabalho) ou periódica desses profissionais, que fosse lícito e medida compulsória  o médico atestador  comunicar diretamente à empresa sobre a incapacidade e proibição daquele funcionário de  exercer a sua atividade. Se assim tivesse sido feito, essa tragédia inominável com o voo Germanwings teria sido evitado. Quantas vidas e danos materiais se pouparia com um simples comunicado à direção dessa empresa de aviação sobre o veto desse copiloto em estar na direção de uma aeronave desse porte  .
Deixo portanto, essa sugestão ao nosso Conselho Federal de Medicina. Dessa forma poderemos evitar muitas outras tragédias por doenças psiquiátricas tão encontradiças, aqui, na Alemanha e no mundo! Nossos gestores e guardiões da profissão médica aqui no Brasil poderiam ser os primeiros com uma medida tão simples, mas altamente salutar na prevenção de tragédias tão impactantes para muitas familias e a sociedade.   

  
    #JoãoJoaquim médico articulista do DM joaomedicina.ufg@gmail.com

BOOOOOOM DIA....

OI , BOA-NOITE , BOOOM-DIA , COMO VAI ?
 João Joaquim

 Como de hábito eu caminhava, ou melhor eu trotava no Bosque dos Buritis pela manhã . Digo mais que sou useiro e vezeiro no cumprimento às pessoas que olham para mim. E mesmo para quem não me olha. Nesse dia de março, não fugi ao meu costume. No que estava em atitude de alguns alongamentos, passava uma madura senhora com um smartphone nas mãos e fone no ouvido. Não era uma balzaquiana. Ela tinha (tem) perto de 40 anos. Disse-lhe de forma bem escandida boooom dia! Ao que ela retrocedeu o tronco, meneou a cabeça em minha direção e com ares reprovativos  perguntou, o Sr me conhece? De pronto eu olhei para ela com um terno e respeitoso sorriso e retorqui: não a conheço e nunca a vi, mas ainda assim eu lhe desejo um bom-dia! Como que comendo algumas letras, ela devolveu a saudação e picou o passo  toda empertigada.
Todo este pequeno ritual de meu encontro e desencontro com aquela também caminhante dos Buritis  foi o quanto basta para que eu refletisse sobre uma atitude tão comezinha ou perfunctória no gasto de energia; mas o quanto ela pode ser rica de significados e de laços e alianças emotivas e benfazejas para nós animais humanos e os não humanos. Eu estou a me referir sobre o gesto da saudação ; olá, oi, bom-dia, boa-tarde, boa-noite, como vai ? O sorriso , a gargalhada, o bom humor, a alegria, ainda são os melhores fatores de bem-estar. Com esses sentimentos e gestos nós sintetizamos e liberamos as melhores substâncias como as endorfinas, as catecolaminas , a dopamina; hormônios do prazer e da felicidade.
O que é uma saudação ou cumprimento? É um gesto que posso expressá-lo com palavras, com uma interjeição ou mesmo discurso a alguém. Passo também fazê-lo através de um gesto, uma mímica ou um sorriso, de preferência não amarelo. Interessante quando buscamos a etimologia dos verbetes para entender melhor os significados dos gestos. Saudação tem relação com    saúde# saudar tem o mesmo significado de salutar (saudável)#. Ora, no momento em que desejo ou recomendo um bom-dia, boa-tarde ou boa-noite a alguém eu estou lhe comunicando um voto, um sentimento de bem-estar, de saúde, de felicidade.
Uma expressão desejosa de um momento melhor, alegre, ou mais um dia de saúde, bem-aventurança.  Nada mais é do que nossa solidariedade, nossa ternura, nossa oportunidade de desfrutarmos juntos das dádivas e graças que encerra a própria vida.
A manifestação de alegria e júbilo é uma sensação tão natural e benévola que não é exclusiva do gênero humano. Nós a encontramos no mundo dos irracionais. Mesmo entre os animais menos evoluídos. Basta observar tal manifestação recíproca entre insetos como as formigas, vespas e borboletas. Será que existe  gestos de mais reciprocidade do que a faina e lida diária das formigas ou abelhas operárias ?
O que observamos no mundo de hoje? Como vivem as pessoas  nessa era da hipercomunicação, da hipermodernidade e da velocidade máxima em tudo que se faz? Nós humanos estamos  cada vez mais nos comportando como máquinas pensantes, mas pouco afeitas ao afeto, à amizade, ao amor. Pensamos em demasia com o cérebro  e sentimos pouco com o coração . Calculamos de mais  e amamos de  menos. Contradições que não condizem com os desígnios afetuosos e solidários da pessoa humana. Nós fomos concebidos para o amor e para o bem. As pessoas, hoje, vivem massivamente urbanizadas. Todos os seres humanos  estão tão próximos, mas distante ao mesmo tempo. Deixamos de há muito as selvas florestais e as cavernas mas, nos cercamos de uma floresta de concreto, ferragens, condomínios e portões eletrônicos. As pessoas pouco falam mais entre si, inclusive entre os membros familiares. A informática, as mídias digitais, a internet e as redes sociais isolaram mais os indivíduos. A onda do momento é a conexão no mundo virtual. Ninguém mais fala com ninguém . Todos andam de mãos dadas, mas com os seus apetrechos de informática ( celulares, smartphones, iPad, notebooks).
Por toda essa alienação do mundo urbano, da hipervelocidade, da multiconexão, é que a vida vem perdendo o sentido. Por isso soa estranho e muito esquisito para os hiperconectados aqueles gestos de civilidade, de solidariedade e de humanização. Oi, olá, como vai? Bom-dia, boa-noite! Quem é você? Eu não o conheço!       

  João Joaquim  - médico e articulista do DM joaomedicina.ufg@gmail.com

SEU ANTÃO...

AS VIDAS DE SEU RUDOLINO ANTÃO

  João Joaquim


 Na verdade o seu Rudolino Antão Tapirano, vulgo seu Anta, nunca foi dado a muitos afagos e salamaleques familiares. Para funcionar bem era sabido e batido que ele tinha que estar sob a inspiração da manguaça. O funcionar bem aqui fica entendido para ele. Porque para os circunstantes, tolerá-lo,  só se fosse compartilhando da sua água-bruta. E põe bruta nisso porque os seus pileques se davam com um sarapatel que ia de cerveja, à malvada da cachacinha e vodka da pura. Aí é que se dava um mistifório de alocuções   sem nexo e de baixo calão difícil de suportar. Retrocedendo à biografia do sr Rudolino, para entender o seu passado, dá para perceber que ele não foi um malfadado na vida. Mineiro dos recônditos das gerais, ele iniciou sua vida de labor como bancário. Dizia ter servido até no nacional do guarda-chuva  de Magalhães Pinto. Esteve uma temporada em capital do norte, quando juntou-se com trapos e sarrafos com uma manauara.
De lá aportou-se em Goiânia. Aqui fez-se até com vários bens , com rentáveis  luvas e pés-de-meia. Continuou sua faina de bancário, adquiriu algum patrimônio  como carros e terras. Mas, continuava em seu jeito perdulário, estróina e amante dos prazeres do bucho e das bebidas. Ele parecia ser feliz  nesse estilo de viver, e  vivia rodeado de amigos, parentes e aderentes. Era um repetir de patuscadas, gastanças e orgias de libações etílicas e muita comilança. No estilo do sr Rudolino, o seu Antão, tudo aquilo não tinha limites. Era uma rotina desbragada a la  Gargântua ou Pantagrel com uma natureza peculiar, tudo se dava na sua própria casa, a seu custo e muitos gastos. A família era formada pela mulher e 4 filhos. Todos, numa adaptação compulsória desde a infância dos filhos, se pacificaram ao jeito grosseiro e antissocial do Sr Antão  ( seu Anta).
 As coisas foram se ajeitando para a família. O filho primogênito Nadágio Antão fez um casamento de fachada. Um conúbio gigolesco. Ele entrou com alguns dotes físicos e a consorte com alguns cobres do espólio do pai.  De cara alguém diria parodiando  o grande Machado: “ Escrevo com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, e não é (nem era) difícil antever o que poderia sair desse conúbio do  filho mais velho . E não foi mesmo porque esse anátema na vida de Nadágio se materializou. A mulher se tornou um  cônjuge de vida fútil e sibarita, só queria viver na preguiça, sem nada produzir , às custas dos proventos do apaixonado maridão .
 O outro filho, Argentério Antão se juntou a outro doidivanas e foram viver às suas maneiras de forma gaiata. Das duas filhas, a mais velha seguiu uma sorte melhor. Santifa Rudolino, se firmou como amanuense em uma fileira pública e se deu melhor na vida.
A outra filha, Sarina de Antão, foi quem mais se divergiu da prole. Era uma espécie de proxeneta em suas relações. Sempre se envolvia com a vida privada nas confidências de terceiras. Suas lides diárias se resumiam a viver em redes sociais e todas as futilarias do mundo virtual.  Seu projeto de sinecura foi alcançado no amásio (casório de conveniências) com um marido que lhe satisfez nos mais inglórios e baixos desejos, o de viver de forma fútil e ociosa em troca dos favores da carne e da cama. Até quando ia assim durar não se tinha premonição.
O estilo de tocar a vida do seu Rudolino continuava do mesmo padrão  para pior. Cada dia se degradando nas bebidas, no desfazer do patrimônio, nas bebedeiras de amofinar e aborrecer a família. Todos os bens iam se esfacelando. Ele era um completo ausente e negligente com as coisas domésticas. Os “amigos” aproveitadores e desonestados foram dilapidando tudo em negócios mal-ajambrados.
Seu Antão se enviuvou. A condição financeira que já estava depauperada entrou em um turbilhão. Os filhos e amigos da fortuna de antes se escassearam e tudo foi se esboroando. Vieram alguns achaques, sobrevieram dois derrames cerebrais, reumatismos e fratura de uma perna e tudo se tornou em ruína.
Para pular alguns pormenores, o seu Rudolino Antão, o Anta, hoje vive a expensas de uma mísera aposentadoria do INSS e sob os cuidados e viveres providas pela filha Santifa Rudolino. Muitos parentes e amigos de copo se escafederam de fininho. Sua casa ou apê que antes vivia em festa, hoje mais parece um albergue mantido pelo SUS de que todos os amigos da fartura de antes  querem ficar bem longe.
Na convalescência dos derrames e da fratura da perna foram propostas exercícios e fisioterapia para reabilitação. Mas, no seu estilo tabaréu e casca-grossa o seu Anta Rudolino se encasquetou em não seguir nenhum preceito médico.
Hoje, o seu Antão vive sedentário, glabatário  e empacado em uma cama imunda por sua pura e impregnada  ignorância. Ele tornou-se prisioneiro do seu próprio jeito tosco, insalubre e aparvalhado de vida, ou como os mais próximos o chamam um sujismundo, que em tradução livre é igual a fedorento, rabugento e ranzinza. Que sina foi essa do seu Rudolino. Um pobre-diabo, preso às consequências de  sua  turrice  e teimosia trazidas do interior das Minas Gerais.
                  
João Joaquim  - médico e articulista do DM            joaomedicina.ufg@gmail.com

EDUCAÇÃO E MINHA MELANCOLIA




Ao escrever essa crônica eu confesso e quero comungar com outras pessoas a minha melancolia. Eu gostaria de ser refratário a este estado mórbido de tristeza e depressão. Mas, a medicina que eu professo e exerço ainda não alcançou sintetizar um soro ou vacina para essa condição enfermiça e existencial que acomete algumas pessoas. Já antecipo que jamais vou me considerar o sal da terra. Sou apenas semelhante a outros bilhões de minha espécie que têm o potencial de amar, fazer amigos, ser racional e dotados de muitos outros sentimentos como tristeza, solidariedade, piedade e compaixão! Apenas isso!
Teria eu visto algum crime cruel? Não .  Esta realidade tem se incorporado ao nosso cotidiano e com ela até nos costumamos a conviver sem mais nos escandalizar. Alguns mortos a mais no trânsito? Também não. Eles fazem parte das notas diárias dos noticiários. Mais alguns milhões no balanço da corrupção? Não .  Estes, fatos também já foram classificados como institucionalizados e já não assombram ninguém.
Que me tachem do que quiseram, mas eu estou contrariado com a educação brasileira. Na verdade educação brasileira, com o e(letra e)   e o  b mais do  que minúsculos. Raquíticos mesmo. Eu não sei se os leitores que me leem, ouviram ou viram uma notícia dessa semana nos jornais sobre as vagas não preenchidas na Universidade Federal de Goiás (UFG- 07.04.15). São 942 em variados cursos, inclusive no curso de medicina, historicamente uma das áreas mais concorridas. Eu tomo de empréstimo uma citação de um ex governador de MG, Francelino Pereira: que país é este? Frase esta repetida por um dos corruptos da Petrobras, Renato Duque , quando foi preso na operação Lava-Jato, que país é este ?
Este país que foi tão grandiloquentemente aclamado e beatificado por figuras como Osório Duque Estrada, Castro Alves e Olavo Bilac deveria estar sendo mantido e reconstruído por homens e livros como recomendou Monteiro Lobato. Mas, tudo tem sido feito ao contrário do que preconizaram  esses grandes sonhadores, idealistas e notáveis vultos de nossa História.
É aceitável e certo que nossos governantes e representantes políticos tenham culpa no cartório no que concerne aos rumos de nossas escolas e universidades. Na visão de nossos áulicos administradores, cultura e educação digna e de qualidade se tornaram artigos de segunda necessidade. Esta realidade está estampada  na visão e jeito petista de engabelar e enganar o povo brasileiro.
Que pátria educadora é esta? Qualificativo este inventado pela presidente Dilma Rousseff. Que educação é esta que abandona os seus próprios filhos. É muita falta de gentileza de um país como o seu próprio futuro, as crianças e jovens.
De outro lado, não se pode perder de vista também o espírito e disposição de nossa juventude. Afinal o que querem os nossos moços e moças desse Brasil? Basta lembrar os versos da música disparada de Geraldo Vandré “ Quem sabe faz a hora não espera acontecer”. É sabido e exaltado que a melhor hora, o melhor momento do ser humano é a fase jovem, quando a pessoa está plena de sonhos e projetos de vida. É oportuno então indagar: o que vocês jovens querem para o seu futuro e o amanhã de nosso país? Os sonhos de uma pessoa são  a medida de seu futuro. Será que nossos jovens já não sonham mais como o faziam os nossos ascendentes ( pais e avós)?
O resultado do Enem 2014 foi outra notícia e constatação que nos deixa profundamente consternados com os rumos de nossa educação, com o futuro de nossa cultura, com a inteligência, com as ciências, enfim com o desenvolvimento “latu senso” de nossa nação. Um dos critérios ou item importante do exame para se entrar numa universidade são a prova discursiva e redação. Onde o aluno tem questões subjetivas. Ou seja, ele tem que expressar os seus conhecimentos escrevendo os seus pensamentos e conceitos sobre determinado tema.
O tema da redação foi  publicidade infantil. Mais de 500 mil alunos tiraram zero nesse item. Dissecando melhor os motivos de tantos reprovados constatou-se que cerca da metade desses zerados entregaram a prova em branco, a outra metade escreveu alguma coisa, mas fora da temática proposta. Traduzindo em miúdos, os cerca de meio milhão  de alunos reprovados por causa da redação não sabiam o significado da expressão publicidade infantil.
Explicando melhor o nível de nossos candidatos a um assento nos bancos de um curso superior: Nossos adolescentes e jovens crescem e lidam o tempo todo com publicidade e não sabem expressar sobre este maior fenômeno de seu próprio dia-a-dia. E como nossos candidatos vivenciam esta realidade? Através dos instrumentos que eles mais usam e apreciam. Ou seja, a televisão , o computador, a internet, o mundo virtual, as redes sociais, os smartphones etc.
O problema da educação brasileira começa lá na infância. Como ter um ensino médio e superior de qualidade se faltam até creches para nossas crianças?  É o mesmo princípio na construção de uma casa ou prédio. Se em sua fundação e aterramento não há uma boa sustentação essa obra está condenada ao fracasso, rachaduras e desmoronamento.
Educação e cultura de qualidade se fazem com livros, boas escolas, professores qualificados e as famílias engajadas nesse processo.
A perdurar a orientação dos modernos educadores apenas com os instrumentos digitais e da internet continuaremos a formar uma legião de aparvalhados que mal sabem expressar, pensar, criar e se quer escrever no papel o que se pensa.  Se quer sabem expressar e escrever algumas linhas sobre publicidade. Que triste!     
             
João Joaquim  - médico e articulista do DM joaomedicina.ufg@gmail.com

ANTI-MENTIRA....

MINISTÉRIO ANTI-MENTIRA
 João Joaquim


 A sociedade brasileira como um todo, sobretudo  segmentos organizados, entidades civis como CNBB ( Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e partidos de oposição ao governo Dilma Rousseff (PT), vêm de há muito criticando o excesso de ministérios, secretarias e outros órgãos do aparelho estatal. Para se ter uma ideia são mais de 25000 cargos de confiança. Algo de se ver só no Brasil .
São criticas e protestos com absoluto fundamento. São 39 ministérios. Alguns nos motivam até a uma rebarbativa pergunta: o que eles nos fazem de bom e útil? Algum, de função primordial, em qualquer país do mundo, passa a impressão  de que teve um desvio de função ou vale um zero a esquerda. Vamos pegar dois casos do nosso Brasil como exemplos, os ministérios da educação e da fazenda. Eu penso que nossa educação e nossa economia estariam melhores se eles não existissem. Basta observar os índices de avaliação de nossos alunos e escolas e os indicadores econômicos. Na Economia, pib na pindaíba , inflação crescente, desemprego em alta  , etc.
Para começar, estes dois órgãos do governo se fossem extintos, tanto não fariam falta como gerariam mais renda e economia para os cofres públicos. Vejam bem o quanto de dinheiro não se deixaria de consumir com tanto pessoal, equipamentos, imóveis e tantos outros instrumentos. Só de avião e papel sobrariam muitos recursos. Eu não sou engajado em nenhum partido político. Gosto de participar e dar as minhas sugestões. Por isso estou matutando em propor, junto com outras simpatizantes, uma ação civil pública para criação de mais um ministério. Se são já 39, vamos arredondar, 40. Se bem que o número quarenta nos sugere algo cabuloso e de mau agouro. Para quem não se lembra da lenda, basta rever a estória do Ali Babá e os seus 40 ladrões. É uma historia linda para corruptos. Conta-se, à boca-miúda, que tem sido o livro mais lido pelos petroleiros- corruptos na carceragem Policia Federal , lá em Curitiba-PR .
Mas, para não passar como uma ideia perdulária fiquemos com 40  mesmo. Seria um ministério( o 40º ) com dupla função e vai resolver do mesmo jeito. Seria o ministério anti-mentira e anti-corrupção. Olha só o quanto tal ministério, inédito em qualquer nação civilizada, iria fortalecer o nosso PiB e o nosso PIP ( produto interno do patriotismo). Todos devem estar cientes de que esse novo ministério teria critérios diferentes na escolha de seu ministro e outros assessores. Todo o seu corpo administrativo não poderia ter vínculo ou ideologia com siglas partidárias. Nem no presente, nem no passado. Seriam escolhas altamente técnicas. Como fez a presidente Dilma com o ministro Renato Janine Ribeiro para o ministério da educação. Até onde sei ele era até um crítico da política do PT.
A indicação do titular dessa pasta anti-mentira e  anti-corrupção não teria o tal do fisiologismo ( parece coisa indigesta), o princípio do dá cá e toma lá, da troca de favores, do você vota em mim e depois a gente se acerta etc. Nada disso, de costumeiro dos atuais governantes , entraria como peso para se chegar esse cargo de ministro.
A escolha seria assim: várias entidades públicas e privadas indicariam uma lista séptupla . Desses sete nomes um seria o agraciado. Seriam por exemplo a CNBB, a OAB, ministério público. Sete órgãos participariam da escolha . Cada um indicaria um nome. Não valeria o MST do João Stédile e seu exército. Eles são muito fascistas e carbonários e nós não queremos violência. O candidato escolhido ainda seria sabatinado pelo congresso. Como faz com os juízes do STF.  
Quais as principais atribuições ou funções desse novo ministério anti-mentira e anti-corrupção? Ora, simples e objetivo, sua tarefa se encontra estampada no próprio nome. Ele teria, a ingente e desafiadora  tarefa de acabar com toda forma de mentira, de trapaça, de enganação, de falsidade e corrupção. E corrupção em todos os sentidos e em todos os níveis do governo. O político cometeria por exemplo corrupção em estelionato ideológico ou eleitoral. O que fazer? Prisão em flagrante, preventiva ou provisória e imediata demissão uma vez comprovada sua culpa, ainda que não  intencional. Esse político ou parlamentar se pego nessas infrações constitucionais ou legais não teria direito a indulto, delação premiada, direitos a responder em liberdade, a contraditórios embromatórios, nada disso. Seriam crimes de lesa-pátria hediondos e de condenação sumária. Ah, outra condição que seria extinta para sempre, a tal da imunidade parlamentar, que mais sugere impunidade parlamentar. O gestor público e qualquer funcionário do executivo e legislativo não teriam mais o chamado foro (tribunal) especial para julgamento de seus crimes.
Aí e aqui ou acolá sim, esse ministério iria justificar sua existência e o Brasil seria passado a limpo e promovido a  outro estágio de honestidade, ética e honradez.
Para falar a verdade, talvez nem precisasse dos outros 39 ministérios. Só um bastaria para se ter um país mais  justo e decente, seria então o ministério anti-mentira e anti-corrupção!


 João Joaquim  médico articulista DM joaomedicina.ufg@gmail.com    


PROPAGANDA E....

PROPAGANDA E PUDICIDADE

 
João Joaquim

 Hoje vivemos uma época em que nunca se viu tanto destaque como a publicidade. O mundo industrial tem muita publicidade, o comércio idem, as artes idem, o esporte idem, a cultura idem. As pessoas mais ainda . O que são as pessoas hoje que não um conjunto de propaganda e publicidade? Para robustecer minhas proposições iniciais, a internet, as redes sociais, as plataformas digitais estão aí para reforço dessa tendência que parece não ter volta. Cada vez mais o ser humano gosta de se exibir, de se mostrar, de se pavonear, de estar em evidência.
Lembra-me aqui a origem da publicidade ou propaganda, são termos equânimes e de mesmo significado. Conta-se, seja lenda ou realidade, mas faz todo o sentido e com nexo lógico, que esta arte de se mostrar, de se exibir começou com o estudo de um veterinário ornitólogo. Shizitu Viguti, um indiano de Nova Deli , nos primórdios do século VIII a.C, dedicava-se ao estudo dos pavões. Todos sabemos que são aves galináceas de grande porte. O macho tem plumagem brilhante azul ou verde e imensas penas caudais que se abrem formando ocelos iridescentes;  fazendo um conjunto muito harmonioso de grande beleza visual. Ao cortejar a fêmea o pavão exibe todos esses adereços. Quanto mais bela e colorida for essa exibição mais chance de ser aceito e acasalar com a povoa à sua volta.
O que estudou o ornitólogo o professor Viguti ? Ele fez um estudo observacional e estatístico. As aves machos que tinham melhor exibição, mais bela plumagem e mais visibilidade eram as que mais se acasalavam e deixavam portanto mais descendentes. O  resultado dessa bela exibição , de toda essa estratégia de se apresentar às fêmeas era a garantia da perpetuação dos genes e da espécie .    Pronto, nasceu daí a publicidade, a propaganda e estamos no estágio em que nos encontramos. Estamos na era da visibilidade, da publicidade, da comunicação rápida e instantânea. Tudo é exibição .
Aliás, justiça ainda seja feita à contribuição do pavão nos princípios  da arte de se mostrar, de se vender (publicidade). Da participação histórica e milenar dessa belíssima e exótica ave,  surgiram as palavras derivadas: pavonáceo, pavonada, pavonesco. O verbo pavonear, caminhar ou desfilar com galantaria e soberba. Mostrar, exibir, ostentar, enfeitar-se, ataviar-se à maneira dos pavões .
Hoje podemos dividir a publicidade em dois ramos principais, aquele voltado para o mundo empresarial ou pessoa jurídica, e outro aplicado à pessoa física. Assim fica fácil o seu entendimento. A publicidade pessoa jurídica pode ser pública ou privada. Pode-se ver que todo governo tem um órgão ou ministério das comunicações ou propaganda. Aqui haja dinheiro. Nessa empreitada  tem aquela exorbitância monetária que o governo faz como obrigação de quem está no poder e deveria ficar só nisso. Mas, tem  os gastos com a chamada propaganda enganosa, maniqueísta e mentirosa. Nesse imbróglio tem ainda a cota para a corrupção, que no caso particular do Brasil é enorme!
A publicidade privada envolve a indústria e o comércio. Aqui leva vantagem quem melhor se maquiar, quem melhor se exibir, quem melhor impressionar os sonhos e desejos de gasto do consumidor. É a mesma estratégia e habilidade do pavão em atrair a pavoa.
 No campo da publicidade pessoal se torna impossível, nos dias de hoje, dissociá-la da internet e das redes sociais. Nesses tempos virtuais, com tantos recursos digitais e de mídia houve uma mudança radical nos conceitos de intimidade, privacidade e sigilo pessoal. Na verdade as pessoas se comportam(na  internet e telefone celular) como se tivessem perdido o senso de pudor, recato e decência. Os (as) internautas da grande rede perderam a vergonha de se exibirem ou mostrar seus atributos físicos e pessoais. Ninguém mais se cora ou se vexa em mostrar os seus atributos físicos e a  anatomia íntima seja em fotos ou vídeos. Parece que os glúteos, coxas, bumbuns e seios turbinados a silicone valem mais do que os dotes intelectuais e culturais. É o predomínio dos atributos do mundo da beleza e da estética.
Se na origem e nos objetivos principais a propaganda se destina a valorizar o que se mostra, na internet as pessoas têm se mostrado o contrário desses desígnios. Há como que uma perversão e degradação dos valores morais, da ética e da intimidade daqueles que andam embriagados e entretidos com a exibição e exposição no mundo virtual. Não contando ainda que os dados civis, identidade, informações pessoais ficam à mercê para quem os queira usar de forma criminosa.
Parece, enfim, que as pessoas se encontram perdidas, e em que pese estar fazendo uma publicidade pessoal, estão na verdade vulgarizando seu nome, o respeito da família e jogando a própria honra e a sua própria dignidade na vala comum dos indignos e no lixo. Olha quanto perigo estamos vivendo hoje com a empolgação e embriaguez dos encantos e armadilhas do mundo virtual e da Internet!
           
João Joaquim  médico e articulista do DM joaomedicina.ufg@gmail.com

OS NOSSOS SONHOS

OS SONHOS SÃO A MEDIDA DE NOSSO FUTURO
João Joaquim


Todos já ouviram ou   fizeram esta pergunta  a alguma criança : o que você quer ser quando crescer? Com este mote eu desenvolvo a ideia que me veio agora, nossos desejos e sonhos para o futuro. Há um provérbio bem engenhoso nesse sentido que diz: nós somos do tamanho de nossos sonhos. O quanto seria bom   que isto fosse uma sentença infalível. Será que  nossos sonhos são a medida de nosso futuro?
Vamos aqui discorrer sobre alguns conceitos. No sentido figurado, o que vem a ser um sonho? Este simbolismo de que tanto utiliza a humanidade tem muito a ver com o fenômeno psíquico do inconsciente tão bem descrito e trabalhado  pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud. Segundo esse médico-cientista os sonhos resultam de conflitos do dia-a-dia , de vivências diárias ou anseios não resolvidos ou inalcançáveis pela pessoa em suas atitudes e ações normais e rotineiras. Muitas vezes os cenários e a dinâmica dos sonhos se dão de forma surrealista, em episódios e feitos que escapam à capacidade laborativa do ser humano em  uma rotina normal da vida.
Freud estudou muito bem o inconsciente e  a estrutura da personalidade que são  recheados de conflitos e acordos psíquicos. Para tanto nossa psique foi dividida em três componentes fundamentais, o id, o ego e o  superego. O id se localiza no inconsciente, é responsável pelos instintos e seria a fonte de energia da personalidade humana. Ele está vinculado às nossas pulsões e ao prazer. O ego (eu) está ligado à realidade exterior. Ele deriva do id, mas vai se diferenciando com a maturação do indivíduo. Ele tem a missão de garantir a saúde, a segurança e sanidade da personalidade. Enfim, ele representa a autopreservação do indivíduo.
O superego se origina do ego e atua como um fiscalizador, juiz ou censor sobre as ações e pensamentos do ego. Enfim ele regula as ações da pessoa e funciona como um manual de conduta ou código moral. Para simplificar nossa estrutura psíquica Freud usou esta frase metafórica: “o ego é um cavaleiro tentando frear um cavalo selvagem(id), seguindo as ordens do professor de equitação (superego)”! Como se conclui, o fenômeno psíquico do sonho se dá nessa intrincada constituição da personalidade. Os enredos e sequência dos sonhos são sempre revestidos de muita ação, devaneios e fantasias, beirando muitas vezes ao nonsense e surrealismo, a uma dimensão quase utópica e impossível de se repetir na vida prática. Do conhecimento médico-científico descrito por Freud e outros psicanalistas notáveis é que veio o emprego do termo sonho no sentido figurado como um feito incomum, quase inalcançável e heroico. Daí resulta então as repetidas expressões: este é o meu sonho, aquele feito foi uma realização dos sonhos de fulano . Qual é o seu sonho de vida?
E assim pensando é bom e útil que o faça sempre a pessoa humana. Porque não só do visível, do palpável, da que é fácil e repetitivo e concreto é  que se vive. A vida é feita de sonhos. É muito válido e coerente o  que disse um cientista contemporâneo Max Weber : “o homem não teria alcançado o possível se , repetidas vezes ,  não  tivesse tentado o impossível”.
Dentro dessas proposições genéricas, quais sejam dos sonhos ser a medida e impulso de nossas realizações eu misturo a essas ideias um outro sentimento , o   princípio da esperança de que se apossa o ser humano em muitas circunstâncias da vida . Trata-se de uma força interior  que move e energiza a alma e o coração das pessoas frente a muitos embates da vida. Diante de tantos imprevistos e desventuras, muita vez, é como se nós  abríssemos nossa caixa de pandora. Todos os sentimentos se esvaem, menos este que nos traz alento e nos fortalece, a esperança. O jargão - a esperança é a última que morre- reflete bem este espírito .
Entretanto, é oportuno que se faça um reparo com tal sentimento tão promissor e confortante. Há que distinguir esperança de espera. Como assim? Espera se resume a uma atitude passiva, de expectativa, de contemplação imóvel. Muito difere a esperança (de esperançar). Nesta, entende-se não uma conduta contemplativa, mas uma postura ativa, de ir ao embate, à luta, de superar e anular este ou aquele infortúnio. Podemos diferenciar esses dois sentimentos assim: na espera por exemplo de ganhar na mega-sena .  Eu aposto em alguns números e vou esperar pela sorteio. Vamos que eu acerto, fico milionário. Nada fiz que esperar pela sorte, e não tem o que fazer mesmo.
Por outro lado se eu sonho em obter um bom emprego, ser um executivo de uma empresa, ou ser um empresário, não posso cruzar os braços e esperar simplesmente que alguém venha ao meu encontro, me oferecer tal oportunidade. Por essas e tantas outras noções sobre tão importante tema ficam aqui consignadas estas divagações sobre esta tão ordinária e universal questão, qual seja do sonho de cada pessoa. Cada um e cada uma pode, sim, ter a dimensão , o peso e a estatura do sonho sonhado, mas para tanto, necessário se faz também ter uma atitude proativa e se encher de esperança com atitudes ativas e produtivas. Não vale apenas a atitude de  esperar , porque isto é atitude e conduta de pessoas fracas, preguiçosas , passivas e derrotistas. O bom e positivo mesmo é aquela esperança com gestos e condutas ativas, de entusiasmo, de ir ao embate e romper os obstáculos e tudo aquilo que emperra e obstrui os nossos sonhos e projetos de vida.  Bons sonhos e todos à luta!  


 João Joaquim  - médico e articulista do DM joaomedicina.ufg@gmail.com