ADEUS CANETAS E DIETAS
Em se tratando da doença deformante e sanitariamente degradante, que é a obesidade, nos seus variados graus, existem alguns lances e aspectos curiosos e instigantes. São muitos os itens, considerando o envolvimento social, festivo e psicológico da doença. Por exemplo a questão de quando a pessoa vai participar de alguma cerimônia, onde e quando serão feitas dezenas ou centenas de fotos, os álbuns digitais, os vídeos, aparências e mais aparências, porque afinal de contas, como disse o filósofo Berkeley (britânico e empirista) “Ser é ser percebido”. Nesse contexto e necessidade as pessoas pesadas buscam surtivamente (surto ou endemicamente; surto significa, de forma geral, uma manifestação súbita, repentina e intensa de um fenômeno) perder peso. Haja então restrição alimentar, academia e agora o recurso mais imediatista das canetas de emagrecimento. A custo, obviamente. De altos preços: tirzepatida, semaglutida.
Ainda recorrendo aos ditames da filosofia existencialista de Jean Paul Sartre. “A existência precede a essência”. Em se tratando de nossa era da pós modernidade, bem descrita e alinhada com Zigmunt Bauman com os seus declamados tempos líquidos e fluidos. Tudo vai bem pelo melhor dos mundos das aparências. Ser é se mostrar bem vestido e bem colorido nas redes sociais, como Instagram e tik tok, WhatsApp. O mundo digital trouxe algo de bom porque examinando atentamente cada postagem das pessoas, o que as pessoas mostram de fotos e vídeos, nós emissores de opinião e colunistas, temos a chance de examiná-las e saber a que vieram a esse mundo, a esse vale de lágrimas. Metáfora aqui para dizer que a vida boa e real se fundamenta em trabalho, trabalho, trabalho. Há que se esfalfar até atingir alguma essência.
Mas, na visão dos usuários de Internet, os YouTubers, os adeptos de Instagram, para quê? Se tudo está lá prêt-à-porter. Para quê gastar fosfato, energia mental, raciocínio abstrato. As plataformas digitais já me fornecem tudo, do bom e do melhor. Tudo vai bonito e colorido pelo melhor das aparências aditadas à existência. Basta conferir minhas páginas virtuais.
Passadas as cerimonias tidas e avaliadas como solenes e efemérides, as coisas, ou melhor, o peso, o perfil repimpado de adipócitos e proeminências, a circunferência de quadril, vão retomando o posto inicial. Adeus mounjaro, adeus semaglutida, dieta e academia. Eu quero mesmo é repimpar, refestelar. Miojos, massas, arroz do bom, carnes capitosas, chocolates. Com isto tudo fica como dantes no quartel de Abrantes! Ah, também o casamento já passou, as festas, as fotos, os vídeos. Agora quero mais é comer do bom e do melhor!
João Joaquim de Oliveira - médico e articulista do DM