A mãe de vida estróina
Quem faz boas leituras de humanas, ou mesmo boa Literatura, de forma imediata atura o que expressava Michel Foucault (1926-1984). É de se imaginar se esse grande filósofo francês vivesse nestes tempos de mídias e redes sociais. Certamente que teria um imenso laboratório a céu aberto para fortalecer suas ideias e teorias a respeito do funcionamento da sociedade mais que contemporânea, pós modernidade, pós internet e redes sociais. Imaginemos suas teses do vigiar e punir, do conhecimento a serviço do poder.
Um pensador hoje, eslavo Luchese Scheling (1974- ), pouco conhecido e nada midiático, vai em muitas linhas do pensamento de Foucault e Heidegger, quando discorre com muita propriedade sobre a aptidão e passividade com que algumas pessoas, a depender do contexto e dos sujeitos envolvidos, se readaptam e se conformam a certos estados sociais e acolhem indivíduos do círculo social próximo. Trata-se de fenômeno de readequação social àquela pessoa, àquele grupo, embora estes expressem e têm um caráter diverso e fora do padrão habitual de civilidade, de interação social, de correção nas relações com outros.
Scheling emprega por exemplo o tipo social, que transitando nos padrões sociais, trânsito social. Interessante termo empregado, algumas pessoas, volta e meia, faz a marcha a ré social. Entra nesse contexto a tese foucaultiana do vigiar e punir. Tem-se lá um membro intimista e genético. Estabelece, circunstancialmente, um primor condutivo, do qual não era o projetado, por outro membro grupal. Adaptação, normalidade imediata, compulsório. O quê!
Pode-se trazer a teoria do vigiar e punir de Foucault para o jeito de vida de muitos indivíduos. Nessa teoria, imaginemos aquele elemento social que apresenta bons predicados intelectivos e técnicos, formação profissional diferenciada. Este quid indivíduo exibe duas personalidades nas relações. No âmbito corporativo de trabalho, pontual, correto, múnus e expertise conforme a chamada “compliance” institucional. Todavia, entrementes, fora desse ambiente apresenta caráter e conduta absolutamente antissocial, de contrafações, de proveito de boa-fé de gente ingênua de suas relações próximas.
Vêm as explicações desses pensadores e cientistas de humanidades. Muitos humanos exibem duas éticas ou duas generosidades: uma ética de coração e uma ética de coerção. Quer essa tese dizer que: vigiado, com vídeos, registros audiovisuais e hierarquias, o indivíduo é correto, padrão de honestidade e ética. Fora dessa vigilância se mostra um aproveitador, explorador de energia e recursos alheios de toda natureza. “Vigiar e Punir”, de Michel Foucault.
O mesmo se registra, em outro exemplo singular ou plural. Um parietal ou paredista da mais elevada e cândida estima, nos mais lídimos escores afetivos. Para não ficar como dantes no quartel de Abrantes, houve uma primazia, uma preeminência; um decisum extemporâneo e inopinado. “Não, mas, de acordo, não há de que”. Fenômeno da naturalização e normalidade. Acontece.
Nesse contexto, conforme Scheling, entram inclusive justificações e deliberações espíritas. São os fluxos, influxos e refluxos da alma, do espírito. As vibrações entram nos mecanismos psíquicos da readaptação e conformação dos desadaptados e desadaptadas à naturalização e normalidade de ora avante! Humanos somos, e nada humano me é estranho – Somos capazes de, ao caminhar pelas ruas, desviar sem problema de fezes caninas ou felinas; contudo encontrar fezes humanas é motivo de asco ou distanciamento – Mário Sérgio Cortella “Nada do que é humano me é estranho – Terêncio- poeta latino.