"Mãe-iê me traga a toalha"
HÁ o caso do motorista do Porsche que atropelou e matou outro motorista trabalhador e honesto em são Paulo, depois semelhante episódio se deu no Rio de Janeiro, depois um racha no interior de São Paulo com duas mortes de pedestres, depois uma Mercedes em Goiânia, que atropelou e matou um vigilante trabalhador humilde em sua moto; e fuga do assassino. E, assim, são outras centenas de metrossexuais e homens jovens bem-apessoados. Uma vez adultos, levam suas vidas na mesma toada de adolescência. São os eternos adolescentes e playboys, os que se negam a serem adultos.
“Ah, essa comida é de ontem, requentada? Quero não. “Passe aquele bife aí pra mim, gosto de carne feita na hora”. “Mãe-iê”, pega a toalha para mim! Mãe-iê. Manhê sabe o que me aconteceu? Manhê o Tonico me bateu” (tirinha).
Estas são notícias mínimas que mostram como andam os expedientes, as relações intrafamiliares de muitos lares brasileiros e pelo mundo. Vivemos tempos tenebrosos, esquisitos. Famílias desestruturadas, uma juventude que pouco ou nada produz, muitos tocam a subsistência às expensas de um pai, a mãe, um avô/avó, marmanjos com saúde de ferro e que nada fazem e nada produzem. Alguns até formam; Direito, Administração Privada, Medicina, Veterinária. Recebem o diploma, e concluem, não gosto, não é meu gosto!
Esse fenômeno e constatação de tantos indivíduos improdutivos, dependentes economicamente, não é exclusividade dos tempos pós-modernos, marcados por internet e telefonia móvel. Sempre existiu o fenômeno, causado por uma educação mambembe, tosca, tolerante, sob a batuta de uma educação familiar tolerante, complacente, conivente, por falta de regime e regras de vivência e convivência. Pai e mãe tolerantes, toleimas. A primeira e construtiva e instrutiva educação, ou não, vem da família. Ou se educa direito ou mal educa.
O destrambelho e atrapalhação de nossos moços e moças, vêm se fazendo assim, em se tratando de pai e mãe que não cumprem o papel, não intenção de bem educar seus filhos. Ou até há famílias educadoras. A coisa se faz assim: educa-se os filhos nas diretrizes certas e padrões. E vai, e vai, escola daqui aulas dali etc., Entretanto, os pimpolhos engordam e crescem. As famílias não sabem tudo sobre educação. Podem ser bem-intencionados! Será! Esse grupo de pais que não bem instruíram e educaram os filhos, vão tendo o trabalho perdido. Bem ou mal-educados há os desajustes vindos de fora de casa, o meio social. E por que? Vem as razões.
Fora de casa, nos encontros sociais, escolas, cenários de entretenimento, esses filhos e filhas vão sofrer forte e determinante influência e marcas dos grupos de amigos, contatos, comportamentos estranhos aos ensinamentos e regras não implantadas pelas famílias. Ora, naturalmente, há um apelo a que esses filhos e filhas pertençam a esses grupos extrafamiliares. Certo ou errado, esse cenário fora da família vai marcar e timbrar esses filhos, com suas falas, seu modus vivendi, seus gostos, suas preferências. Esses adolescentes e jovens, terão duas vias de pertencimento, estar “in group, ou out group”. Pertencer ou não pertencer a esses grupos. Não é difícil imaginar para onde vai a maioria desses jovens! Há esse apelo de pertencimento, de estar antenado ao grupo, à tribo da onda, da moda, vigente! É careta não pertencer.
Falemos da família e seu papel na criação e formação integral dos filhos, com vistas a uma cidadania participativa. É saudável registrar que criar e formar um filho, é um processo de longo prazo e demanda investimento afetivo, educativo, disciplinar, instrução e escolas de boa qualidade. Ética e cidadania se aprende a partir do berço e chupeta. Educar mal, será um mau cidadão de fato e de efeitos ruins; educou correto e disciplinarmente, chance de um cidadão participativo, integral, utilitário. Cidadania, na concepção greco-romana (filosofia e ética familiar) não se restringe a ter um RG, CNH, diploma e outros qualificativos civilizados mínimos. A formação integral do indivíduo vai bem além disso. No antigo Império Romano e Grécia Antiga, cidadania era um título reservado a estratos sociais restritos, com vários condicionantes. Cidadão romano era um cidadão do mundo.
Soba ótica da Sociologia e Educação, pode-se dividir a família em padrão A e padrão B. O padrão A é aquela família que investe de forma continuada em ética, em honestidade, em participação dos filhos nos afazeres domésticos, na instrução permanente dos filhos, nas noções básicas de economia e na relação custo/benefício de todos os gastos. E mais importante, nos sentimentos de afeto, de respeito aos ancestrais e pessoas idosas, a um professor, ao vínculo afetivo e amoroso com os pais, avós e irmãos. A família padrão é a que tem as escolas dos filhos como parceiras e complementos na instrução e formação escolar e técnico-científica dos filhos.
A família tipo B, traz muito de contrário à família A. se caracteriza pela tolerância dos instintos e indisciplina dos filhos, pela não implantação de limites e regras de convício com os pais e outros membros da casa, por se colocar sempre cordata com os desejos e vontade dos filhos e filhas. Algumas outras características marcam esses filhos e filhas, serem titulados de os príncipes e princesas da casa (um ilusão e autoengano). São filhos e filhas tratados com privilégios. Os celulares da moda, as roupas de grife, os bons tênis, ao direito a vários objetos da moda.
Na continuação dessas considerações, não se perde de vista o papel de Internet, redes sociais, das variadas formas de jogos, games, futilidades e nocividades livremente acessadas via online. E por que de Internet e redes sociais na formação e maturação de adolescente e jovem? Pelo apelo insistente, convincente e permanente a essa geração, para pertencer ao grupo (in group), à tribo da moda: comidas, vestuário, motos, carros, diversão. O maior símbolo dessa extrema e nociva dependência é o celular. Ninguém vive sem a maquininha. O usuário se torna possuído, possessão digital do celular. A indústria digital, as operadoras e provedores se apossaram da sociedade com todos os objetos digitais e as conexões online. O celular é o irmão gêmeo do dono. O celular e objetos de mídias tomam posse do dono. Possessão!
Chegamos então à receita imperfeita na criação de uma geração de indivíduos perdidos, inúteis e improdutivos. São moços e moças, que desse estado de insanidade social, cultural e profissional perdem o bonde da vida, das carreiras profissionais que deveriam seguir e não seguem. E esta é uma característica bem constatada nesses tempos tenebrosos de tanta futilidade e ninharias: são jovens que cursam uma faculdade, recebem diploma de graduação, e depois se declaram desiludidos e desinteressados da formação alcançada.
Quando se analisa, por exemplo as relações sociais familiares de muitos desses jovens (moços e moças), notadamente os de famílias tipo B, aqui descritas, esses indivíduos manifestam pouco afeto e um discutível “amor”, aos seus pais, avós e outros membros parentais idosos. Na Psicologia Positivista esses moços e moças padecem da síndrome da fragilidade ética intrafamiliar. Que se caracteriza pelo pouco zelo, pouco respeito, discutível amor para com os pais e membros parentais. Um indicativo dessa fragilidade ética é quando falece um pai, uma mãe, um dos avós. “ Tanto faz, ter vivido ou morrido, ou talvez até foi melhor ter morrido”. Tanto faz! Que triste, hein”. Mas, enfim, que foi responsável, na maioria dos casos a própria família, porque ética e honestidade se ensina e não nascem com a pessoa, instrução e treinamento!
“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. ’ Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. ” Arthur Mersault – personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus.